Em um momento histórico em que a civilização ocidental é frequentemente acusada de ter nascido da violência, do poder e da opressão, este ensaio propõe um retorno às suas raízes mais profundas. Partindo da ética socrática e de sua recusa radical ao mal, o texto percorre o mundo clássico, encontra seu pleno cumprimento no cristianismo e afirma o amor — e não o poder — como a verdadeira força motriz do Ocidente.
Bradley J. Birzer, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
Uma das minhas maiores alegrias na vida é lecionar a disciplina obrigatória do primeiro semestre na Hillsdale College, intitulada “Herança Ocidental”. Acabei de completar meu 27º ano lecionando essa disciplina e aprendo algo novo a cada vez que a ensino. No curso, analisamos uma série de textos primários: o Código de Hamurabi, o Gênesis, o Êxodo, o Deuteronômio, o Primeiro e o Segundo Livro de Samuel, os gregos, os estoicos, os romanos, os primeiros cristãos, os patrísticos, os medievais, os homens do Renascimento, a Reforma e o início da era moderna. É muito conteúdo para cobrir, uma jornada, um turbilhão, mas absolutamente maravilhoso. Na prática, eu distribuo os textos antes de cada aula; os alunos os leem e, em seguida, discutimos na aula seguinte. É a maneira perfeita de apresentar aos alunos a faculdade e sua missão de defender os aspectos judaico-cristãos e greco-romanos da civilização ocidental.
Embora nosso primeiro documento seja o Código de Hamurabi — o texto mais antigo que temos no Ocidente —, sempre começo a primeira aula discutindo as páginas 86 e 87 de nossa fonte primária, o diálogo entre Sócrates e seu melhor amigo, Críton, sobre a natureza da ética. Nele — a expressão mais completa da ética pré-cristã no Ocidente —, Sócrates revela que nunca se deve fazer o mal, mesmo quando se é injustiçado. Além disso, ele diz que, sempre que alguém faz o mal — mesmo com as melhores intenções e em busca de um bem maior —, ele mancha completamente o bem. Em outras palavras, de forma alguma se deve fazer o mal. É um ensinamento incrivelmente difícil, mas é realmente o início da ética no Ocidente.
Sócrates está a apenas três dias do fim de sua vida quando tem essa conversa, e está disposto a ser um mártir por Deus, aquele que lhe ordenou que buscasse a verdade, não importa o custo. O custo é sua execução pela polis que ele ama, Atenas.
Não é de surpreender que os primeiros cristãos, especialmente os estoicos romanos, pensassem que Sócrates era um proto-cristão, com São Justino Mártir chegando ao ponto de rotulá-lo como “cristão antes de Cristo”. Afinal, ele havia defendido que se deveria oferecer a outra face quatro séculos antes de Cristo e morreu por seu deus e por sua comunidade.
O que nós, no século XXI, devemos reconhecer é que Sócrates fez tudo o que fez por amor aos seus semelhantes, amor à sua comunidade e amor ao seu deus. Portanto, o Ocidente não está enraizado no racismo, sexismo, colonialismo, imperialismo ou qualquer forma de degradação, mas sim no amor e na dignidade. Se houve um princípio orientador nos primórdios da civilização ocidental, ele está no amor e no sacrifício e no desejo de encontrar o bem universal da pessoa humana em todas as suas manifestações, independentemente das circunstâncias do nascimento.
O amor definiu o pensamento e as ações de Sócrates, mas também guiou os gregos que o seguiram, especialmente os estoicos, que adotaram o Logos de Heráclito (datado aproximadamente de 510 a.C.) como seu deus, seu princípio orientador do universo e da criação. Um dos maiores estoicos romanos, Virgílio, depois de prever Cristo na Égloga 4 — o filho do Deus e da virgem que apagará o pecado do mundo através dos méritos de seu Pai — proclama na Égloga 10: Omnia vincit Amor: et nos cedamus Amori. O amor conquista tudo; nós também nos rendamos ao amor.
Meio século depois, Deus faz exatamente isso, oferecendo-nos a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Encarnado, como salvador de todos. Deus, o próprio amor, veio ao mundo, como, naturalmente, celebramos nesta época natalina. Jesus não era apenas o amor personificado, mas também daria absolutamente tudo de si pela redenção da humanidade numa sombria tarde de sexta-feira, apenas para ressuscitar no terceiro dia, com a morte destruída pelo próprio amor.
O amor definiu o pensamento e as ações de Sócrates, mas também guiou os gregos que o seguiram, especialmente os estoicos, que adotaram o Logos de Heráclito (ca. 510 a.C.) como seu deus, seu princípio orientador do universo e da criação. Um dos maiores estoicos romanos, Virgílio, depois de prever Cristo na Égloga 4 — o filho do Deus e da Virgem que apagará o pecado do mundo através dos méritos de seu Pai — proclama na Égloga 10: Omnia vincit Amor: et nos cedamus Amori. O amor conquista tudo; nós também nos rendamos ao amor.
Meio século depois, Deus faz exatamente isso, oferecendo-nos a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Encarnado, como salvador de todos. Deus, o próprio amor, veio ao mundo, como, naturalmente, celebramos nesta época natalina. Jesus não era apenas o amor personificado, mas também daria absolutamente tudo de si pela redenção da humanidade numa sombria tarde de sexta-feira, apenas para ressuscitar no terceiro dia, com a morte destruída pelo próprio amor.
Como tal, a concepção e o nascimento do Verbo Encarnado são o ponto fixo, o centro de toda a história. Afinal, Ele era a “luz que ilumina todo homem”, o Logos grego batizado pela graça pura. É importante notar que o amor de Deus não se estende apenas ao futuro, mas ilumina todo homem, passado, presente e futuro. Deus e a graça divina, é claro, não estão limitados pelo tempo.
O amor cristão animou o mundo ocidental desde Pentecostes, passando por Santa Perpétua e os mártires, por Santo Agostinho, pelo Rei Alfredo, o Grande, por Santo Tomás de Aquino e, é claro, por Dante. Sem exagero, pode-se traçar uma linha direta de Sócrates a Cristo (que está acima de qualquer comparação, sendo totalmente homem e totalmente Deus) e a Dante. No canto final do Paraíso, o poeta italiano explica o que viu quando contemplou a Santíssima Trindade: “Nesse momento, minha fantasia elevada perdeu seu poder, mas minha vontade e meu desejo se uniram como uma roda perfeitamente equilibrada, movida pelo Amor que move o sol e todas as estrelas”. Tudo o que vive, se move e respira o faz apenas porque o amor sustenta o próprio universo.
No mundo moderno, porém, o amor é frequentemente ignorado ou pervertido em luxúria. Quando falamos de governança, quando falamos de relacionamentos, quando falamos de estruturas sociais, nunca mencionamos o amor. O que aconteceu? Como o Ocidente moderno pode ser tão diferente do Ocidente antigo e medieval?
Embora haja uma série de razões para essa perda e decadência, eu diria que podemos, pelo menos, centrar grande parte da mudança nas palavras de Nicolau Maquiavel. Em sua poderosa e influente obra O Príncipe, Maquiavel nos diz que a ética de Sócrates só levará ao dano da sociedade. Embora seja bom ser bom, o governante eficaz sabe quando empregar o mal para um bem maior. Para Maquiavel, é o poder, e não o amor, que nos move.
Tragicamente, em grande medida, Maquiavel acabou tendo razão. Quer ele tenha sido o instigador, quer apenas o observador, os últimos seis séculos da tradição ocidental foram radicalmente diferentes dos primeiros milhares de anos. A esquerda, especialmente, abraçou o poder — o poder de governar e explicar as relações na sociedade. É difícil imaginar qualquer estadista, especialmente desde a Revolução Francesa, proclamando o amor como a força motriz da sociedade. Hoje em dia, falar em amor é entregar-se à superstição, à loucura e ao romance. Muitas vezes, as pessoas chegam a dizer coisas horríveis sobre o amor, como “descanse em paz”.
A ironia, porém, é que aqueles que amam o amor são, a longo prazo, os realistas, enquanto aqueles que amam o poder estão se iludindo e impedindo o caminho para a eternidade. Para concluir, voltemos às palavras eternas de sabedoria, tiradas da primeira carta de São João, capítulo 4:
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade vem de Deus. Todo o que (assim) ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conheceu a Deus, porque Deus é caridade. Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele tenhamos a vida (da graça). A caridade (de Deus) consiste nisto: em não termos sido nós os que amamos a Deus, mas em ter sido ele que nos amou e enviou o seu Filho, como vítima de propiciação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, devemos nós também amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. (Porém) se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e a sua caridade em nós é perfeita.
Sem dúvida, fico com as palavras de São João a Maquiavel. Ora, parece tão simples que até mesmo os Beatles, inspirados por Marx, acertaram: “O amor é tudo o que você precisa”.
O Autor
Bradley J. Birzer é cofundador e colaborador sênior do The Imaginative Conservative. Ele é titular da cátedra Russell Amos Kirk de História na Hillsdale College e membro da Biblioteca Presidencial Ronald Reagan.