As grandes mitologias não são apenas coleções de histórias antigas, mas mapas simbólicos de como diferentes povos compreenderam o drama da existência humana. Ao colocar lado a lado o mundo dos deuses gregos cantado por Hesíodo e o universo sombrio dos mitos nórdicos revisitados por Neil Gaiman, somos convidados a perceber como cada tradição situa a tragédia, a esperança e o destino do homem — seja num passado de caos superado, seja num futuro de destruição inevitável — e como essas visões, em contraste, iluminam de modo ainda mais claro a proposta singular do cristianismo sobre tragédia e redenção.
Josh Herring, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
Sempre me emociono ao ouvir a voz das “Musas Heliconianas” enquanto cantavam “a canção novamente em nosso tempo”, na Teogonia de Hesíodo (1). Adoro a mitologia grega; poucos corpos de escrita são tão férteis para a imaginação e possuem tantos pensadores e escritores curiosos brincando no mesmo espaço. Hesíodo, em especial, é um grande poeta para apresentar aos alunos do nono ano. Ele dá vida à maravilha homérica dos deuses, a realidade encantada oculta por trás de todas as coisas. Como Luc Ferry aponta, a mitologia grega também dá acesso à filosofia grega incipiente.
Questões sobre a transição do poder (dos titãs para os deuses do Olimpo), o poder do amor (Eros, que pode “desfiar os joelhos tanto dos deuses quanto dos homens”), o papel da ordem e da justiça no combate ao caos, as condições necessárias para o florescimento humano — todos esses e outros temas e motivos são claramente abordados na poesia de Hesíodo. Meus alunos do ensino médio apreciaram a estrutura inerente à mitologia conforme Hesíodo passa pela criação (deuses primordiais), pela primeira geração de descendentes divinos (Titãs) e depois pela era olímpica, onde finalmente a ordem, a justiça e o poder se combinaram na figura de Zeus para criar um mundo onde a humanidade pode prosperar.
Esse florescimento está sempre no mundo dos deuses. A visão da realidade que Hesíodo apresenta não é a dos portadores da imagem de Yahweh governando a criação, mas sim a de mortais insignificantes que vivem ao bel-prazer dos deuses. A qualquer momento, os humanos podem irritar os deuses.
Conforme Hesíodo conta o mito de Prometeu, percebemos que a ira dos deuses pode se manifestar de várias formas: uma tempestade, uma maldição, uma mulher bonita. Independentemente de como isso se desenrola, os humanos sempre têm a possibilidade de ofender os deuses poderosos e sofrer em troca. Na mitologia grega, a tragédia é sempre uma possibilidade (e, nas obras dos dramaturgos, uma probabilidade).
Quando concluímos a leitura de Hesíodo e nos preparávamos para passar para o mais antropocêntrico Homero, tivemos uma surpresa que alterou o curso de nossas aulas: Neil Gaiman lançou sua tão esperada Mitologia Nórdica. Gaiman trabalhou a partir das Eddas (2) e, portanto, sua edição da mitologia nórdica parece uma versão atualizada de Deuses e Heróis Nórdicos, de Padraic Colum.
Gaiman empregou uma prosa e diálogos sucintos para transmitir o mundo de beleza, morte, alegria e tristeza que é o ciclo nórdico. Seu Odin parece sábio e misterioso, e o leitor se pergunta se a escolha no Poço de Mimer valeu a pena até o final da história. Thor e Loki, de Gaiman, são maravilhosos, e seu antagonismo impulsiona o humor dos mitos.
Enquanto ensinava Hesíodo e lia o livro Mitos Nórdicos, de Gaiman, comecei a refletir sobre as diferenças de orientação. Ambos descrevem mundos encantados, belos e estranhos. Ambos fornecem a base narrativa para práticas religiosas pagãs; ambas as mitologias intrigam corações e mentes há séculos. No entanto, as duas mitologias são marcadas por uma profunda diferença na forma como encaram a tragédia.
Na mitologia grega, a tragédia está no passado. Cronos mutilou Ouranos, permitindo que o tempo e o espaço começassem enquanto o céu se movia em agonia; Zeus, por sua vez, atacou e feriu seu pai Cronos, permitindo que seu reinado de justiça (poder ordenado aliado à lei) começasse; no entanto, o reinado de Zeus não se solidificou até a derrota de Tifão, último filho de Gaia e Caos. Os eventos do mundo homérico e os mitos recontados por Apollodorus e romanizados por Ovídio ocorrem todos em um tempo presente que pode olhar para trás, para o domínio do caos. A tragédia, a ameaça da destruição final, foi deixada para trás no mito grego.
Em contraste, na mitologia nórdica, a tragédia está sempre à frente, em um futuro vindouro. Ora, o Ragnarok, a batalha final entre os deuses e os gigantes do gelo (que os deuses estão fadados a perder), está sempre a chegar. Odin tenta adiá-la recrutando os melhores guerreiros para Valhalla, mas várias histórias contam que os deuses descartaram as ferramentas de que precisariam para vencer na batalha final. Além disso, na mitologia nórdica, muitos eventos já estão determinados e escolhidos; Loki e seus filhos triunfarão; o lobo Fenrir uivará; a Serpente do Mundo o sufocará; Hel receberá todos em seu reino gelado. Odin percebe as sombras, mas suas ações, em vez de evitá-las, conduzem os deuses ao Ragnarok. Frey troca sua espada, a única capaz de derrotar as chamas de Surtur, por sua esposa. Loki segue seu caminho sinuoso e, ao gerar três filhos monstruosos, coloca o mundo em um caminho de destruição.
Mas talvez o melhor exemplo do tom de destruição que permeia os mitos venha da história de Baldur, o deus mais bonito do panteão. Baldur está destinado a morrer, mas Loki conspira para que ele pereça nas mãos de seu irmão. Embora todo o mundo tenha chorado com a morte de Baldur, diante da recusa dissimulada de Loki em chorar, Hel reteve a sombra de Baldur para seu leito gelado. Este conto prenuncia a inevitabilidade da destruição do mundo. Gaiman encerra sua mitologia com a inexplicável sobrevivência de quatro deuses e sua renovação do mundo e o início do próximo ciclo. Portanto, a tragédia, para a mitologia nórdica, está sempre chegando.
A direção da tragédia dá um certo tom a cada mitologia. A mitologia grega, apesar de todo o sofrimento de Prometeu, tem a esperança oferecida pela libertação dos condenados por Hércules. Apesar da destruição da cidade, Baucis e Filemon vivem até uma idade avançada e recebem o desejo de seus corações. Odisseu retorna para casa, para Penélope, e eles desfrutam de seus “rituais antigos”.
A mitologia grega tem esperança porque os deuses triunfaram sobre o caos e estabeleceram uma ordem moral no cosmos. A mitologia nórdica carece dessa nota de esperança, substituindo-a por um desespero inevitável. A certeza da chegada do Ragnarok lança uma sombra de desgraça sobre as conquistas de cada herói; mesmo que Loki tenha sido capturado e punido, ele um dia escapará para destruir o mundo. Embora os deuses tenham recuperado as maçãs que dão juventude, um dia elas murcharão e morrerão. Embora a muralha tenha sido construída ao redor de Asgard, um dia a cidade cairá em ruínas. A mitologia nórdica não oferece esperança nem alegria verdadeira, mas apenas desespero e prazer temporário; ela ecoa as famosas palavras: “Coma, beba e seja feliz”, pois amanhã você morrerá.
Cada uma dessas mitologias explora verdades sobre a existência humana; por isso, elas continuarão a perdurar como monumentos imponentes da literatura humana. No entanto, como narrativas explicativas do mundo, elas não conseguem igualar a beleza do que Tolkien chamou de “mito verdadeiro” do Evangelho cristão. Enquanto a mitologia grega muitas vezes esconde o horror sob uma aparência de comédia (quantas vezes Zeus deveria ter sido condenado?), a mitologia nórdica não deixa espaço para realizações humanas reais.
Apenas o cristianismo conta uma história diferente. Nessa história, Deus viu que a humanidade havia se condenado ao tormento eterno. Deus assumiu a responsabilidade de satisfazer a justiça e morreu em nome da humanidade. A cruz é o evento trágico do cristianismo; o momento em que Deus morreu parece ser o momento em que tudo está perdido. No entanto, como explica Tolkien, essa eucatástrofe é o “desastre bom” no qual a vitória é alcançada. Na morte de Cristo, a salvação da humanidade é conquistada (comprovada pela ressurreição). A possibilidade da glória eterna na humanidade ressuscitada e aperfeiçoada é alcançada.
Em vez de localizar a tragédia no passado mítico fora da história ou no futuro que sempre há de vir, o cristianismo localiza a tragédia e a vitória no tempo, numa cruz em Jerusalém há dois milênios. Ao fazer isso, o cristianismo oferece uma tragédia real que culmina em uma esperança real para a humanidade.
A mitologia grega e a mitologia nórdica podem nos ensinar muito sobre o que significa ser humano; o que elas não podem fazer, porém, é nos dar a esperança definitiva. Para isso, precisamos de uma história mais verdadeira.
Referências
1 – NT: Na Teogonia de Hesíodo as Musas, filhas de Zeus e de Mnemosýne (“Memória”), manifestam-se no canto e na dança e em forma de canto e de dança. Elas constituem o fundamento transcendente dos cantos e, ao mesmo tempo, a garantia divina da verdade que nesses cantos se revela.
2 – NT: As Eddas são dois manuscritos literários islandeses fundamentais do século XIII que servem como fonte primária para o conhecimento moderno da mitologia nórdica, cosmologia e lendas germânicas.
O Autor
Josh Herring é professor de Humanidades na Thales Academy, formado pelo Southeastern Baptist Theological Seminary e pelo Hillsdale College, e doutorando no programa Great Books da Faulkner University. Ele escreveu para Moral Apologetics, Think Christian, The Federalist e The Everyman; adora estudar a interseção entre história, literatura, teologia e ideias expressas nas complexidades da vida humana.