A rainha que perdeu a coroa

Este artigo faz parte de uma série sobre os heróis desconhecidos da cristandade. Entre esses testemunhos esquecidos, destaca-se a figura de Catarina de Aragão, uma rainha que perdeu a coroa, mas jamais a dignidade, e cuja fidelidade à fé e ao matrimônio se tornou um dos mais impressionantes exemplos de fortaleza cristã. Muito além da narrativa superficial que a reduz à primeira esposa de Henrique VIII, sua vida revela o drama de uma mulher privada de ver a própria filha, que transformou a humilhação pública em um testemunho de santidade não canonizada.


Joseph Pearce, Crisis Magazine | Tradução: Equipe Instituto Newman


Todos os católicos conhecem a Salve Rainha, a antífona mariana cantada em louvor à Virgem Maria, Rainha do Céu, que é sem dúvida a mais celebrada de todos os heróis da cristandade. É, portanto, à luz do seu heroísmo que devemos olhar para as outras rainhas santas que são heroínas da cristandade. É fácil lembrar das rainhas santas que foram canonizadas pela Igreja, como Santa Isabel de Portugal ou Santa Margarida da Escócia, mas muitas vezes nos esquecemos daquelas que não foram canonizadas, como Catarina de Aragão ou Maria, Rainha da Escócia. E é para a primeira dessas rainhas santas não aclamadas que agora voltaremos nossa atenção.

É realmente surpreendente como a maioria das pessoas sabe tão pouco sobre Catarina de Aragão, além do fato de que ela foi a primeira esposa de Henrique VIII, de quem ele se divorciou após sua infeliz paixão por Ana Bolena. No entanto, enquanto Ana era realmente uma femme fatale, cujos encantos sedutores levariam tanto o rei quanto seu reino à apostasia, Catarina era uma femme formidable, uma mulher de fé e fortaleza, que permaneceu fiel aos seus votos matrimoniais e à dignidade sacrossanta do santo matrimônio.

Enquanto rainha da Inglaterra, ela era conhecida por sua virtude. Após os tumultos em Londres, conhecidos como o Evil May Day [1], ela intercedeu com sucesso pela vida dos manifestantes, pelo bem de suas famílias. Ela era admirada por seus trabalhos pioneiros em prol do socorro aos pobres e era conhecida como patrona do humanismo renascentista, tendo feito amizade com os grandes estudiosos Erasmo e Thomas More. Ela teve seis filhos, dos quais apenas um sobreviveu, antes de Henrique abandoná-la por Ana Bolena. Ela foi banida da corte, e mudou-se para sua antiga residência.

Catarina escreveu em 1531:

Minhas tribulações são grandes, e minha vida é perturbada pelos planos inventados diariamente para promover a intenção perversa do rei. As surpresas que o rei me dá, com certas pessoas de seu conselho, são mortais, e meu tratamento é o que Deus sabe que é suficiente para encurtar dez vidas, muito mais a minha.

Henrique estava determinado a anular seu casamento com Catarina, apesar da oposição papal. Curiosamente, a anulação também foi condenada pelos líderes protestantes Martinho Lutero e William Tyndale, bem como pelos proeminentes católicos ingleses John Fisher e Thomas More, ambos martirizados por se oporem à busca tirânica do rei por sua vontade monomaníaca.

Após o casamento ilegítimo do rei com Ana Bolena, Catarina foi colocada em prisão domiciliar. Ela foi confinada em vários castelos e palácios, acabando por ficar no Castelo de Kimbolton, em Cambridgeshire. Ela ficou limitada a um único quarto, saindo apenas para assistir à missa, e jejuou continuamente. Catarina foi proibida de ver sua filha, Maria, ou mesmo de escrever-lhe. Henrique ofereceu à mãe e à filha condições de vida mais confortáveis e permissão para se verem caso reconhecessem seu casamento com Ana Bolena, mas ambas recusaram.

Quanto à piedade e a fé de Catarina, ela pertencia à Ordem Terceira de São Francisco e seguia devotamente suas obrigações religiosas como franciscana, integrando seus deveres como rainha à sua piedade pessoal. “Prefiro ser a esposa de um mendigo pobre e ter certeza do céu”, disse ela após seu banimento, “do que a rainha do mundo inteiro e ficar em dúvida (da minha salvação) por conta do meu próprio consentimento”. Ela morreu no Castelo de Kimbolton em janeiro de 1536, muito amada pelo povo inglês e admirada por todos, até mesmo por seus inimigos. “Se não fosse mulher”, escreveu Thomas Cromwell, seu adversário, “ela poderia ter desafiado todos os heróis da História”. 

“Todos os homens sentiam simpatia pela gentil, simples e digna rainha Catarina”, escreveu Hilaire Belloc. “Eles estavam familiarizados, através de retratos e relatos, com sua presença sorridente, suas belas feições… sua reconhecida bondade.” Além disso, continuou Belloc:

Suas desgraças a tornaram querida pelo povo inglês. Ela deu vários filhos ao marido e sofreu decepções, pois todos esses filhos, exceto um, morreram na infância ou nasceram mortos, e seus abortos espontâneos eram bem conhecidos.

William Cobbett era tão efusivo em seus elogios a ela quanto severo em sua condenação ao marido abusivo:

Ela havia sido banida da corte. Ela viu seu casamento anulado por Cranmer e sua única filha sobrevivente bastardizada por um ato do parlamento; e o marido, que teve cinco filhos com ela… teve a barbárie de mantê-la separada e nunca permitir que, após seu banimento, ela visse a menina! Ela morreu, como havia vivido, amada e reverenciada por todos os homens e mulheres de bem do reino, e foi enterrada, em meio aos soluços e lágrimas de uma vasta multidão, na igreja da Abadia de Peterborough.

Hoje, quase quinhentos anos após a morte de Catarina de Aragão, a Inglaterra ainda vive com as consequências desastrosas da traição de seu marido. Embora ela não tenha sido canonizada pela Santa Mãe Igreja, o peregrino ainda pode rezar no túmulo da rainha de coração partido da Inglaterra. O tempo cura todas as feridas e a eternidade consagra os santos. Muito depois que os templos terrenos da Inglaterra secular contemporânea tiverem desaparecido — o brilho, o vidro, o mármore falso e o aço inoxidável —, um permanecerá sob as pedras da Catedral de Peterborough, sem ser aclamado, mas ainda glorioso e intacto. 


O Autor

Joseph Pearce é professor visitante de literatura na Universidade Ave Maria e pesquisador visitante do Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire). Autor de mais de trinta livros, é editor da St. Austin Review, editor da série Ignatius Critical Editions, instrutor sênior da Homeschool Connections e colaborador sênior da Imaginative Conservative e da Crisis Magazine.

 

Referências

  1. N.T – O Evil May Day foi um episódio de violência popular ocorrido em Londres no dia 1º de maio de 1517, durante o reinado de Henrique VIII, motivado principalmente por hostilidade contra estrangeiros (sobretudo mercadores e artesãos flamengos, franceses e italianos) que viviam e trabalhavam na cidade.

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