Platão e a ideia de arte

Platão permanece uma referência incontornável quando se trata de refletir sobre elementos objetivos como a verdade e a beleza. Em contraste, a cultura contemporânea elevou a subjetividade a critério absoluto, transformando qualquer coisa em “arte”. Há, portanto, não apenas um choque entre Platão e o nosso tempo, mas também uma urgência de recuperar uma noção objetiva da realidade para que possamos reencontrar o sentido autêntico da beleza e da fé.   
  Rafael Xavier Gonzalez, OnePeterFive | Tradução: Equipe Instituto Newman


Platão era um ultra-realista que enfatizava, a um grau extremo, a realidade objetiva, a ponto de acreditar que os conceitos eram entidades individuais com sua própria realidade independente, ou seja, o mundo das “formas”. A alma realmente existia nesse mundo inteligível antes de existir no corpo e voltaria para ele assim que o corpo se decompor e a alma pudesse escapar da prisão do corpo.

Para Platão, o verdadeiro conhecimento é obtido pela razão pura e pela compreensão; nossa mente obtém conceitos com base nas formas imateriais de uma maneira infundida, não através dos sentidos. A percepção empírica não pode nos dar o verdadeiro conhecimento, apenas a “crença” pode, uma vez que o objeto do empírico são meras “cópias” (cópias ruins) das formas inteligíveis perfeitas, e as cópias, ou seja, objetos particulares, estão em constante fluxo, enquanto as formas nunca mudam.

Aqueles que dedicam suas vidas às formas são os filósofos e devem ser os governantes de uma sociedade ideal, de acordo com a República de Platão, vivendo de acordo com a virtude da sabedoria. Os membros de classificação inferior, os trabalhadores, dedicam-se às cópias, coisas tangíveis e concretas, enquanto vivem a virtude inferior da moderação. Portanto, a realidade objetiva, embora de forma radical em Platão, tem primazia e deve dominar a vida dos homens.

Platão acreditava que essa cidade utópica deveria excluir os artistas por quatro razões: metafísica, porque a arte é uma cópia da cópia, uma imagem da imagem, uma coisa básica em si mesma; epistemológica, porque a arte não transmite nenhum conhecimento verdadeiro, nem o artista sabe nada, uma vez que os objetos particulares são apenas “acreditados”; estética, devido à expressão de coisas sensuais, distraindo o homem da forma da beleza, a realidade puramente intelectual; e por fim, moral, uma vez que a arte apela às partes inferiores da alma, ou seja, ao lado apetitivo da alma.

O filósofo grego acreditava que a arte era um incitamento à anarquia. Até mesmo Homero deveria ser censurado, já que era culpado de “crimes” artísticos. A filosofia deveria substituir a arte, a razão suplantando a paixão.

Essa é, sem dúvida, uma visão extrema. No entanto, hoje chegamos ao extremo oposto, enfatizando radicalmente a subjetividade, marginalizando a objetividade ou simplesmente negando-a. Na cultura dominante contemporânea, contrariamente às ideias de Platão, a arte toma o lugar da filosofia, a paixão supera a razão, os sentidos substituem o intelecto. Isso é evidente na arte conceitual ou subjetiva de nossa era, cujo lema é que tudo e qualquer coisa é arte, tornando a arte, na realidade, nada. Não precisa ser nada em si, desde que seja significativo para o sujeito.

Platão certamente ficaria “chocado” com a arte conceitual moderna, pois ela levaria à anarquia mais do que a arte objetiva do passado. Esses “artistas” conceituais criticam a arte tradicional; eles acreditam que ela é “confinada” por certos elementos substanciais imutáveis, o que todos os alunos costumavam aprender em Teoria da Arte ou Arte para principiantes. Esses princípios rígidos são considerados obsoletos e excluem outras noções de arte; não podemos ter isso em nosso ambiente inclusivo. A objetividade é vista como algo escravizador no final das contas.

Lembro-me de entrar em uma exposição de arte contemporânea e ver uma “obra de arte” que consistia em quatro ou cinco baldes coloridos, cada um cheio de água em níveis diferentes. Percebi, junto com outras pessoas, que aquilo não era realmente arte, pelo menos na maneira objetiva típica de pensar. A “obra” era inútil em si mesma. Mas, assim que li a interpretação do autor sobre os baldes cheios de água, localizada em uma placa próxima, percebi imediatamente que a “arte” estava simplesmente na mente do criador. Na verdade, sem a explicação do artista sobre sua obra, não era possível dizer se a obra era arte ou não.

A arte é provavelmente a melhor intérprete da cultura. Se você deseja compreender a história profundamente, estudar arte é fundamental, pois ela revela aspectos de um povo que outros elementos históricos não conseguem revelar. Hoje, perdemos a noção da arte real porque perdemos a noção da realidade.

A existência da arte conceitual aponta para um problema mais profundo na atualidade: a negação de toda a realidade objetiva, não apenas dos princípios imutáveis da arte.

Pessoalmente, converti-me à fé católica lendo Platão, acredite se quiser. Depois de muito estudar, fui atingido por uma percepção profunda, mas simples: a realidade objetiva existe, devo conhecê-la e conformar-me a ela, o que foi, ao mesmo tempo, uma revelação grandiosa e assustadora. Precisamos do platonismo para salvar nossa cultura, impregnada de subjetividade e relativismo. Simplesmente não podemos chegar à sublimidade da fé católica, contemplando seus mistérios divinos, quando os fundamentos são negados, ou seja, a objetividade.

Somente a recuperação da arte real, a arte em si, pode nos salvar da visão subjetiva e anárquica da mesma. Podemos até dizer que Platão estava certo em certo sentido. As formas têm existência independente, sendo entidades separadas do mundo material. De acordo com a adaptação do platonismo pela Igreja, as formas existem como exemplos na mente de Deus, que conhecia todas as coisas antes de elas serem concretamente colocadas na existência como coisas particulares. Todas as coisas existem em Cristo desde toda a eternidade e foram criadas por Ele e para Ele. Esta é a metafísica fundamental de São Boaventura, que usou Platão para explicar profundamente os mistérios da nossa fé.


O Autor

Rafael Xavier Gonzalez estudou Teologia, Filosofia, Latim e Grego em dois seminários, um na Espanha e outro no Peru, especializando-se em Tomismo, Suarismo e Molinismo.

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