Em um contexto cultural marcado pela crescente separação entre fé e razão, retoma-se aqui uma questão fundamental: é possível haver uma educação autenticamente cristã sem o devido apreço pelo conhecimento? Partindo das provocativas observações de A. W. Tozer sobre o “culto da ignorância”, Howard Merken examina os desafios enfrentados pelas escolas cristãs contemporâneas, destacando tensões filosóficas e impasses pedagógicos. A reflexão aponta para a necessidade de integrar, de modo coerente, fé, disciplina acadêmica e formação do caráter.
Howard Merken, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
Há mais de sessenta anos, A.W. Tozer escreveu:
Infelizmente, existe hoje, em certos círculos, a sensação de que há algo de errado no ato de aprender e que, para ser espiritual, é preciso também ser ignorante. Essa filosofia tácita nos trouxe, na última metade do século, um novo culto dentro dos limites da ortodoxia; eu o chamo de culto da ignorância. Ele equipara o aprendizado à descrença e a espiritualidade à ignorância e, segundo ele, os dois nunca se encontrarão. Isso se reflete em uma literatura religiosa miseravelmente inferior, em um tipo de reunião religiosa descuidada e em um nível de música cristã tão baixo que chega a ser positivamente constrangedor.
Há algum tempo, um casal de professores da Faculdade de Direito de Yale escreveu:
A sorte dos grupos também pode mudar drasticamente. No início do século XX, quando Max Weber escreveu seu clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, os protestantes ainda dominavam a economia americana. Hoje, os protestantes americanos estão abaixo da média em termos de riqueza, e ter sido criado em uma família evangélica ou protestante fundamentalista está associado à mobilidade econômica descendente.
A educação tornou-se um campo de batalha para filosofias concorrentes. Durante décadas, a educação pública tem sido o meio de instruir a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos. Tradicionalmente, sempre houve uma minoria significativa de pais que matriculavam seus filhos em escolas particulares que correspondiam às suas crenças religiosas — como escolas paroquiais católicas e judaicas. Outros matriculam seus filhos em escolas que correspondem aos seus recursos econômicos e à classe social, como internatos preparatórios para a faculdade. Recentemente, escolas cristãs protestantes surgiram como alternativa ao sistema escolar público, devido ao acentuado declínio dos padrões morais e acadêmicos. Muitos pais decidiram que não precisam mais submeter seus filhos à educação de baixa qualidade em um país livre.
O movimento das escolas cristãs protestantes, que travou batalhas jurídicas pela sobrevivência à medida que crescia na década de 1970, está novamente lutando para sobreviver. Desta vez, o problema é financeiro, ou assim parece. Uma mudança nas normas sociais está prejudicando as escolas, já que um grupo de pais que arca com as despesas frequentemente insiste em uma educação diluída, lutando contra professores que implementam disciplina acadêmica ou comportamental. Escolas abrem e fecham, lembrando uma sequência de tempestades, que se formam e se dissipam à medida que a frente fria avança.
Examinaremos a filosofia da educação cristã protestante, considerando os pontos principais, e estabeleceremos uma meta que ainda não alcançamos.
As escolas públicas nos Estados Unidos surgiram em prol do cristianismo, mas esses dias já ficaram para trás há muito tempo. Harvard e outras universidades de ponta foram fundadas para formar ministros, mas, em geral, estão completamente secularizadas, apesar de ainda oferecerem cursos de teologia. Hoje, as verdadeiras escolas bíblicas e seminários são as únicas instituições dedicadas à formação de pregadores.
O rápido declínio da moralidade no sistema escolar público torna necessária a alternativa de uma educação administrada por entidades religiosas. A visão de mundo da educação pública, baseada no naturalismo, no cientificismo e no socialismo, contrasta fortemente com os ensinamentos da Bíblia. À medida que os alunos do sistema público são forçados a aceitar não apenas o estilo de vida alternativo que lhes tem sido imposto nas últimas décadas, mas também a presença de alunos do outro sexo em seus banheiros e vestiários, cada vez mais pais buscam um ambiente educacional com padrões morais mais elevados e mais segurança para seus filhos.
Existem várias abordagens pedagógicas conhecidas na educação. Em um extremo está o método socrático, no qual os alunos leem o material por conta própria e o discutem em sala de aula. Isso é mais comum na educação clássica e depende de um corpo discente realmente motivado. O outro extremo é a aula magistral em faculdades para centenas de alunos, na qual o professor expõe o conteúdo, com pouca ou nenhuma interação. A leitura geralmente acompanha a aula.
O ensino fundamental e médio situa-se, de certa forma, entre esses dois extremos. Embora um aluno possa assistir a uma aula de cálculo com trezentos outros alunos em uma escola secundária francesa, as turmas americanas apresentam uma proporção melhor de professor para aluno, raramente ultrapassando trinta alunos por sala de aula. Há mais interação entre professor e aluno. O ideal é quando um professor leciona por alguns minutos e, em seguida, certifica-se de que todos os alunos compreenderam o que foi ensinado. Essa pode ser uma adaptação mais difícil para um professor universitário que passou a lecionar no ensino fundamental e médio, mas precisa ser feita.
O livro As Sete Leis do Ensino, de John Milton Gregory, nos informa que a primeira regra é que o professor deve conhecer bem o conteúdo. Isso deveria ser senso comum, mas quando um professor é obrigado a ensinar história, matéria da qual mal tem conhecimento, ou — o que é ainda mais comum em escolas de pequeno porte, como muitas escolas cristãs — precisa lecionar em várias disciplinas, esse aspecto pode acabar sendo negligenciado.
Um professor de ciências de uma escola cristã, por exemplo, muitas vezes precisa ensinar ciências espaciais e terrestres, biologia, física e química. Não há departamentos universitários que ofereçam todas essas disciplinas em um curso só. Um estudante universitário pode se formar em biologia ou em química, ou até mesmo em duas áreas, mas uma universidade não possui um curso de ciências. Isso por si só já justifica uma escola maior, onde um professor leciona uma disciplina seis vezes por dia em vez de cinco ou seis disciplinas diferentes por dia, mas poucas escolas cristãs são grandes o suficiente para isso.
Isso difere bastante da formação de um professor da rede pública. Primeiramente, eles tendem a seguir para o curso de pedagogia, no qual a pedagogia é enfatizada muito mais do que o conhecimento da disciplina. Além disso, conseguem empregos sob a proteção dos sindicatos, que valorizam o poder político mais do que a competência profissional. Por fim, cabe destacar que o humanismo secular invadiu de tal forma a educação pública e a formação de professores que estes são treinados sob uma filosofia bastante diferente daquela apresentada na Bíblia, o que lhes confere uma visão de mundo não bíblica.
O professor precisa ser qualificado na área de ensino, mas também deve ser um discípulo do Senhor. Isso torna a educação cristã muito mais desafiadora. Há muitos professores qualificados e muitos cristãos totalmente comprometidos com o discipulado, mas quantos são ambas as coisas? Isso torna a busca por um bom professor muito mais difícil do que simplesmente recrutar pessoas de uma igreja local ou da família da administração e do corpo docente.
Há outra área em que as escolas diferem. O modelo evangélico protestante acolhe todos os alunos e lhes apresenta o evangelho. O modelo de discipulado forma alunos de famílias cristãs.
Os alunos de escolas que adotam o modelo evangélico protestante frequentemente têm que lidar com casos de bullying. Alguns dos melhores alunos acabam deixando essas escolas para ingressar nas escolas públicas, ao perceberem que estas podem oferecer um ensino de melhor qualidade e menos tolerância para comportamentos inadequados. Devemos lembrar que existem escolas públicas com histórias horríveis, mas há outras que se saem melhor em disciplina e desempenho acadêmico do que muitas escolas cristãs, apesar do humanismo secular presente nas aulas.
O aluno ideal deve estar realmente motivado tanto nos estudos quanto nas virtudes. O modelo de discipulado contribui para um ambiente de aprendizagem melhor. As escolas cristãs clássicas costumam adotar esse modelo. É mais provável que se exija que os pais sejam cristãos comprometidos, com pelo menos alguma compreensão por parte dos alunos — se não uma confissão plena — de que serão exigidos comportamento, atitudes e até mesmo conduta fora da escola de acordo com os princípios cristãos. Embora o aluno problemático possa não encontrar lugar em tal escola, é menos provável que se percam bons alunos por causa daqueles com mau comportamento nesse tipo de instituição.
Os pais devem ser cristãos. Nem sempre é esse o caso, especialmente quando um aluno é encaminhado para uma escola cristã devido à suspensão ou expulsão de uma escola pública. Os pais devem compreender que, na sala de aula, quem manda é o professor. A atual tendência de pais superprotetores atrapalha a hierarquia, e a ideia de parceria com os pais está prejudicando a educação cristã, já que a maioria das escolas cristãs adota isso como política. Os pais não precisam ser acadêmicos, mas devem ter a humildade de se afastar e deixar o professor ensinar. Tentar controlar a administração ou o corpo docente nunca deve ser permitido, independentemente de quanto dinheiro os pais doem para a escola.
O mais importante nas escolas cristãs é a necessidade de integrar tudo com a Bíblia. Isso é mais fácil nas aulas de formação cristã, ainda é fácil em história e outras ciências sociais, mas mais difícil em ciências e, especialmente, em matemática. Até mesmo arte, música e educação física devem ser integradas ao currículo.
A integração bíblica pode ser um desafio pelas seguintes razões. Em primeiro lugar, aqueles que se formaram em faculdades seculares, ou mesmo na maioria das instituições cristãs atuais, geralmente foram expostos ao humanismo secular. Cursos de matemática, química, física e engenharia são excelentes para desenvolver a mente humana, sendo que a evolução é abordada por apenas quinze minutos durante uma aula de bioquímica. A maioria das outras disciplinas, e a própria vida no dormitório expõem os alunos a uma infinidade de pontos de vista que raramente se baseiam na Bíblia.
Em segundo lugar, como a matemática e as ciências podem ser integradas à Bíblia? Gênesis 1 é ciência, e Gênesis 1-11 certamente refutam a evolução, mas a Bíblia, a palavra de Deus, continua sendo, acima de tudo, um livro sobre a redenção humana, e não pode ser o único texto utilizado em uma aula de ciências. A matemática é ainda mais desafiadora, com os números somando-se no Livro dos Números, por exemplo, mas ainda assim um campo neutro em si mesmo, já que um mais um é igual a dois, independentemente das visões religiosas, políticas ou filosóficas de uma pessoa. É aqui que o professor precisa se agarrar a qualquer esperança, especialmente se a integração bíblica for exigida nos planos de aula. A integração até existe, mas é difícil de identificar; por isso, recorre-se com frequência a afirmações como “Deus criou a matemática e a lógica” ou “os gregos viam a matemática como extensão da lógica” apenas para evitar o esforço de encontrar algo que realmente cumpra a exigência de integração.
Em terceiro lugar, a reação dos pais pode ser surpreendente. Alguns querem que a teoria da evolução seja ensinada em sala de aula. A justificativa é que os alunos precisam disso para compreender o que está acontecendo na educação, para se saírem bem nos exames de admissão à faculdade e até mesmo para serem capazes de se comunicar com os outros. As verdadeiras razões provavelmente têm a ver com a aceitação na faculdade e com a descrença que alguns pais têm no modelo criacionista, refletindo suas dúvidas sutis de que a Bíblia seja verdadeira, não apenas em questões espirituais, mas também quando se trata de assuntos históricos e científicos.
Manter a ordem na sala de aula pode ser difícil nas escolas públicas, mas as escolas cristãs muitas vezes não se saem muito melhor nesse aspecto. As mensalidades são o principal fator que sustenta a maioria das escolas cristãs. Como um diretor pode expulsar um aluno, se um ou dois irmãos dele também podem sair da escola, levando consigo algo entre cinco mil e quinze mil dólares? Isso tem levado os administradores a fazer de tudo para manter um aluno na escola. Um mau aluno pode afugentar um bom aluno, nesse caso, perde-se um bom aluno em vez de um mau, mantendo o número de alunos o mesmo, e o diretor coça a cabeça se perguntando o que aconteceu. O desejo de ministrar ao aluno perturbador pode se sobrepor ao bom senso de manter os bons alunos. As escolas cristãs devem permanecer disciplinadas.
Isso nos leva a uma questão que pode ser bastante controversa na educação cristã: o que exatamente é a educação cristã? Trata-se da educação protestante, da educação cristã evangélica, ou abrange também alunos e pontos de vista católicos romanos e ortodoxos orientais? As escolas paroquiais católicas romanas funcionam há muito tempo nos Estados Unidos. Elas levam a sério a ordem, a disciplina e os deveres de casa, mas o cristianismo fragmentado de hoje muitas vezes as deixa fora do âmbito da educação cristã, tal como os protestantes a definem. A educação cristã hoje é, muitas vezes, protestante, quer admitamos isso ou não. E isso parece ser parte do problema.
Na minha infância, as melhores pessoas no campo da educação — fossem diretores de acampamentos, orientadores, professores de educação física, diretores esportivos, vice-diretores ou, aliás, um menino que me ensinou os códigos das jogadas de futebol americano — provavelmente eram todas católicas, e minha cidade era composta por um terço de católicos, um terço de protestantes e um terço de judeus.
A Igreja Católica, com alguns ensinamentos que os protestantes não aprovam, está na vanguarda da educação desde os tempos das escolas monásticas e das universidades. Sua filosofia educacional reflete sua teologia e prática; por exemplo, um católico deve frequentar muitas aulas na igreja antes de ritos eclesiásticos como a primeira comunhão e a crisma. Ao marginalizar o catolicismo, os evangélicos deixaram de lado a melhor filosofia prática de educação. Mesmo que não ensinemos teologia católica, os protestantes deveriam considerar imitar a disciplina e a educação católica. Um exemplo pode ser encontrado nos dois parágrafos a seguir.
John Taylor Gatto, eleito professor do ano da cidade de Nova York por três anos e professor do ano do estado de Nova York por um ano, escreveu sobre sua infância em um internato católico por volta da década de 1940:
O programa intelectual do Colégio Xavier, fortemente influenciado por uma faculdade jesuíta nas proximidades, constituía uma refutação contundente da dieta intelectual insípida do ensino público. Aprendi tanto em um único ano que já estava quase no ensino médio quando precisei pensar profundamente sobre qualquer ideia ou procedimento específico apresentado na escola pública. Aprendi a separar o que era relevante do que era irrelevante; aprendi qual era a diferença entre dados primários e secundários e a importância de cada um; aprendi a avaliar testemunhas diferentes de um evento; aprendi a chegar a conclusões de meia dúzia de maneiras e o potencial de distorção inerente à dinâmica de cada método de raciocínio. Não quero de forma alguma sugerir que me tornei um pensador profissional. Continuei sendo, em grande parte, um menino de sete e oito anos. Mas evoluí o suficiente naquele ano para me sentir à vontade com questões da mente e do intelecto.
Enquanto não fizermos isso, enquanto não ensinarmos nossos alunos a pensar, enquanto não os levarmos a usar o máximo possível de sua capacidade intelectual, enquanto não adotarmos mais a disciplina descrita em seu livro, não alcançaremos nosso objetivo.
O Autor
Formado em uma escola bíblica, o Dr. Howard Merken também possui bacharelado e mestrado em Química pela Universidade do Alasca em Fairbanks, além de doutorado em Química pela Universidade Texas Tech. Ele e sua esposa, Casandra, publicaram a terceira edição do livro *Beyond Classical: The Next Step in Christian Education*. Ex-professor de ciências e veterano no ensino em escolas cristãs clássicas e não clássicas, o Dr. Merken dedica-se a ensinar as pessoas a usar suas mentes para a glória de Deus.