Desceu à Mansão dos mortos

No coração do mistério pascal, entre a Sexta-feira Santa e a manhã da Páscoa, a tradição cristã contempla a descida de Cristo à mansão dos mortos. Longe de um simples intervalo, esse momento revela a profundidade da redenção: Cristo desce para libertar os justos e manifestar seu senhorio sobre toda a criação, como ensina de modo magistral São Tomás de Aquino.

David Arias, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman


A segunda leitura do Ofício das Leituras do Sábado de Aleluia é extraída de uma antiga homilia sobre a descida de Cristo à Mansão dos Mortos. Ela começa assim: “Algo estranho está acontecendo — há um grande silêncio na terra hoje, um grande silêncio e quietude. Toda a terra guarda silêncio porque o Rei está adormecido.” O Rei adormeceu quando sua alma se separou de seu corpo na tarde da Sexta-feira Santa. Ele permaneceu adormecido até que sua alma reanimasse seu corpo na manhã da Páscoa. Mas, durante o silêncio e a quietude do sono do Rei, Ele devastou o “inferno”.

A descida de Nosso Senhor à Mansão dos Mortos é amplamente atestada pela revelação divina. Por exemplo, Cristo diz: “Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do homem estará três dias e três noites no ventre da terra” (Mt 12,40). Além disso, nos Atos dos Apóstolos, São Pedro diz: “[Davi] previu e falou da ressurreição de Cristo, que não foi abandonado no Hades, nem a sua carne viu corrupção” (2,31). Da mesma forma, no Credo dos Apóstolos, professamos: “Desceu à Mansão dos Mortos”.

Além de deixar claro que a alma de Cristo desceu à Mansão dos Mortos, esses textos atribuem claramente essa descida à Pessoa de Cristo. E isso é extremamente adequado. Pois, uma vez que a união pessoal do Verbo de Deus com seu corpo e sua alma permaneceu mesmo após a morte, tudo o que pudesse ser atribuído a qualquer um desses princípios de sua natureza humana, enquanto estavam separados, era também atribuível a Deus, o Filho. Assim, no Credo dos Apóstolos, professamos que Ele (ou seja, Deus Filho) foi sepultado na medida em que seu corpo foi colocado no túmulo. Da mesma forma, professamos que Deus Filho desceu à Mansão dos Mortos por causa de sua alma ter ido para o submundo.

A este respeito, São Tomás de Aquino salienta que é até mesmo verdadeiro afirmar que “assim sendo, no tríduo da morte, Cristo esteve todo “totus” no sepulcro, todo “totus” no inferno, e todo “totus” no céu, devido à Pessoa que estava unida à carne posta no sepulcro, à alma, que espoliava o inferno e que também reinava no céu, subsistindo na natureza divina.” (Compendium Theologiae, cap. 229). De fato, na medida em que, por sua imensidão divina, o Filho de Deus compreende ou contém todas as coisas, devemos afirmar que toda a Pessoa de Cristo está tanto em cada lugar quanto em todos os lugares juntos, mas Ele não está totalmente contido por nenhum lugar isoladamente nem por todos os lugares juntos (Summa Theologiae, III, q. 52, a. 3, ad 3um).

Ao refletir sobre a descida de Nosso Senhor, é, evidentemente, necessário distinguir os diferentes significados do termo “inferno”. Em seu sentido mais geral, “inferno” significa “o submundo”, ao qual os hebreus se referem como Sheol e os gregos chamam de Hades (Catecismo da Igreja Católica, n.º 633). Além disso, como ensina o Catecismo Romano, há três partes principais no submundo. Há a Geena, ou inferno no sentido estrito, que é a morada dos condenados. Há também o purgatório, onde as punições, ao contrário das da Geena, são purificadoras e de caráter apenas temporário. Por fim, há aquela parte do submundo conhecida como “seio de Abraão” (cf. Lucas 16, 22-26). Foi aqui que “as almas dos justos, antes da vinda de Cristo, o Senhor, foram recebidas e onde, sem experimentar qualquer tipo de dor, mas sustentadas pela bendita esperança da redenção, desfrutavam de um repouso pacífico” (Catecismo Romano, pt. 1, art. 5).

Então, em qual ou quais partes do inferno Cristo desceu e por quê? Tomando São Tomás de Aquino como nosso guia, podemos afirmar tanto que Nosso Senhor desceu às três partes do inferno quanto que Ele desceu a apenas uma parte do inferno (ou seja, ao seio de Abraão). Mas, para compreender como ambas as afirmações são verdadeiras sem contradição, devemos distinguir duas maneiras pelas quais algo pode estar em algum lugar.

Pensando primeiro em exemplos cotidianos, é verdade que um mesmo fogo está simultaneamente tanto na lareira quanto em todas as partes da sala que ele aquece. O fogo está na lareira como em seu lugar próprio, enquanto está em todas as partes da sala por meio de seu efeito, ou seja, por meio do calor que produz. Da mesma forma, é verdade que um mesmo músico está simultaneamente tanto no palco quanto em todas as partes da sala de concertos. Pois o músico está no palco na medida em que esse é seu lugar próprio, mas também está presente em todas as partes da sala de concertos por meio de seu efeito, isto é, por meio da música que produz.

Ao aplicar essa distinção à descida de Nosso Senhor ao inferno, é correto afirmar que a alma de Cristo, em sua essência, entrou apenas no seio de Abraão. No entanto, em seu efeito, a alma de Cristo estava, de alguma forma, presente em todas as partes do inferno. Como diz São Tomás: “estando em uma parte do inferno, seu efeito, de alguma forma, se espalhou por todas as partes do inferno, assim como, ao sofrer em um lugar na terra, Ele libertou o mundo inteiro por sua paixão” (Summa Theologiae, III, q. 52, a. 2). Mais especificamente, São Tomás ensina que o efeito próprio de Cristo no submundo foi a concessão da visão beatífica às almas dos justos que O aguardavam no seio de Abraão. Isso, propriamente falando, constitui a devastação ou espoliação do inferno. Pois, ao conceder às almas dos justos a visão que beatifica, o Rei de todas as coisas “roubou” do inferno seus bens mais preciosos. Mas a presença de Cristo no inferno também teve o efeito de dar esperança de alcançar a glória eterna às almas no purgatório e de confundir e desorientar aqueles que estão na Geena (Summa Theologiae, III, q. 52, a. 2).

Essas considerações, por sua vez, lançam alguma luz sobre as razões da descida de Deus Filho ao inferno. Por um lado, Ele foi até lá para manifestar seu poder e sua autoridade ao submundo. Como escreve São Paulo: “ao nome de Jesus, todo joelho se dobre nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse, para glória de Deus Pai: Jesus Cristo é o Senhor!” (Fl 2,10-11). Mas, em segundo lugar, e mais importante ainda, nosso Senhor veio para libertar seus amados do exílio. Ele veio para recompensar aqueles que, desde nosso primeiro pai, Adão, até seu próprio pai adotivo, São José, haviam travado o bom combate e concluído a corrida. O Rei desceu ao Inferno a fim de trazer nada menos do que sua própria visão beatífica, o próprio paraíso que Ele prometeu a Dismas apenas algumas horas antes (Lc 23,43), a essas almas justas e santas.

É, portanto, muito apropriado que a homilia acima mencionada contenha estas belas palavras ditas por Cristo ao nosso primeiro pai, Adão:

Por amor a ti e aos teus descendentes, ordeno agora, por minha própria autoridade, que todos os que estão em cativeiro saiam, que todos os que estão nas trevas sejam iluminados, que todos os que dormem se levantem. Eu te ordeno, ó adormecido, que despertes. Eu não te criei para seres mantido prisioneiro no inferno. Levanta-te dentre os mortos, pois eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos, tu que foste criado à minha imagem. Levanta-te, vamos deixar este lugar, pois tu estás em mim e eu estou em ti; juntos formamos uma única pessoa e não podemos ser separados.

Enquanto o Rei dormia em silêncio e quietude, Ele devastou o inferno. Enquanto o Rei dormia, aleluias ressoavam no inferno, antecipando aqueles que ressoariam aqui em cima na manhã do terceiro dia.


O Autor

David Arias é professor de Filosofia no Seminário Nossa Senhora de Guadalupe, em Denton, Nebraska. É doutor em Filosofia pelo Centro de Estudos Tomistas da Universidade de St. Thomas, em Houston.

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