Publicado em 1938, Além do planeta silencioso marca a entrada de C.S. Lewis no território da ficção científica e inaugura aquela que ficaria conhecida como sua “trilogia espacial”. Longe de ser apenas uma narrativa de aventura ambientada em Marte, o romance é usado por Lewis como instrumento para discutir questões filosóficas, morais e espirituais centrais do mundo moderno. Neste ensaio, Joseph Pearce mostra como, por meio do confronto entre três personagens que encarnam visões opostas da realidade, a imaginação lewisiana desmonta o cientificismo, o materialismo e as falsas promessas de progresso.
Joseph Pearce, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
Há duas coisas das quais tenho certeza sobre o momento da minha morte. A primeira é que haverá centenas de livros que eu esperava ler, mas que permaneceram não lidos; a segunda é que haverá muitos livros que eu esperava escrever, mas que permaneceram não escritos. Na última categoria, se eu não conseguir escrevê-lo antes que o tempo da minha vida se esgote, está um livro sobre a ficção adulta de C.S. Lewis.
Já escrevi um livro sobre a ficção infantil de Lewis, Further Up and Further In: Understanding Narnia (em tradução livre: Mais Alto e Mais ao Fundo: Entendendo Nárnia), mas sinto um grande desejo de escrever um volume complementar sobre sua ficção para “adultos”. Nesse ínterim, até que eu tenha tempo para me aprofundar no assunto, terei que me contentar em escrever ensaios breves que abordam superficialmente o tema, sem explorar as profundezas teológicas e filosóficas. É, portanto, sob essa ótica que o seguinte esboço de Além do planeta silencioso, de Lewis, deve ser lido.
A obra Além do planeta silencioso, publicada pela primeira vez em 1938, foi a segunda obra de ficção de Lewis, sendo a primeira Regresso do peregrino, uma alegoria formal quase autobiográfica que retrata o caminho do protagonista para a conversão religiosa, publicada cinco anos antes. Superficialmente, no sentido mais amplo e genérico, Além do planeta silencioso poderia ser considerado pertencente ao gênero da ficção científica. Envolve uma viagem a Marte e o encontro com estranhas criaturas alienígenas. Foi inspirada em obras anteriores de “ficção científica” de H. G. Wells, David Lindsay e Olaf Stapledon, mas era muito diferente em espírito. Ela expõe a ficção de que a ficção científica tem algo a ver com ciência.
Enquanto Wells, Lindsay e Stapledon usaram o meio da “ciência” para contrabandear suas próprias perspectivas filosóficas em suas ficções, Lewis usou o mesmo meio para contrariar essas perspectivas. Especificamente, além do planeta silencioso e os dois romances posteriores, Perelandra e Uma força medonha, destacam a diferença entre a objetividade da ciência autêntica e o orgulho e preconceito do cientificismo, sendo este último a presunção ateísta de que as ciências físicas têm o poder de resolver todos os problemas.
As ideias filosóficas abordadas em além do planeta silencioso estão resumidas nas perspectivas defendidas pelos três personagens principais, Ransom, Weston e Devine.
O Dr. Elwin Ransom, um filólogo de meia-idade da Universidade de Cambridge, é parcialmente inspirado no grande amigo de Lewis, J.R.R. Tolkien. Tolkien, que havia publicado O Hobbit um ano antes da publicação de além do planeta silencioso, escreveu que reconhecia algumas de suas próprias ideias “Lewisificadas” na caracterização de Ransom.
À medida que a história se desenrola, fica evidente que Ransom é o único dos três humanos recém-chegados a Marte, ou Malacandra, como é conhecido por seus habitantes, que tem empatia pelas três espécies de criaturas que eles descobrem no planeta. Ele é animado pela bondade e pela verdade, buscando a virtude e empregando a razão, e personificando a união indissolúvel entre santidade e sanidade.
O Dr. Weston é um físico que permitiu que sua prática científica fosse contaminada por sua crença no cientificismo. Partindo da presunção materialista de que o físico é tudo o que existe, ele rejeita todas as realidades metafísicas, como a bondade, a verdade e a beleza, em busca da conquista do cosmos material. Sua idolatria pelo homo superbus, o espírito do Orgulho do Homem, leva a uma visão preconceituosa das criaturas alienígenas em Marte, que ele vê como meros untermenschen, espécies inferiores a serem conquistadas e, se necessário, exterminadas.
O terceiro dos três protagonistas humanos, Dick Devine, é um cínico superficial e egoísta que não vê nada melhor do que a auto-gratificação. Ele é motivado pela busca da riqueza material como meio de auto-empoderamento que torna possível a auto-gratificação. Ele é desprovido de qualquer compreensão das humanidades e da grande conversa que animou a história e a cultura humanas e, portanto, está divorciado da própria humanidade. Ele não é nada além de si mesmo e da idolatria narcisista de si mesmo. Ele é o epítome do cínico, conforme definido por Oscar Wilde, que conhece o preço de tudo e o valor de nada; ele é o homem vazio satirizado na poesia de T. S. Eliot e na ficção de Evelyn Waugh; ele é um dos homens sem peito que o próprio Lewis condenaria em A abolição do homem.
Muito mais poderia ser dito sobre este maravilhoso romance, mas a sua dinâmica inerente reside no conflito entre estes três homens e os tipos de filosofia que representam. Além do planeta silencioso nos convida a ver a maneira como cada um dos três homens compreende, ou não compreende, as perspectivas radicalmente novas oferecidas pelo encontro com espécies alienígenas em um lugar fisicamente estranho e um “espaço” metafisicamente ainda mais estranho; em última análise, nos convida a julgar as filosofias que informam ou deformam a compreensão de cada homem sobre a realidade que enfrenta.
O Autor
Joseph Pearce é colaborador sênior do The Imaginative Conservative. Nascido na Inglaterra, o Sr. Pearce é professor visitante de Literatura na Ave Maria University e pesquisador visitante da Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire). Ele é editor da St. Austin Review e editor da série Ignatius Critical Editions além de autor de vários livros.