O Retorno do Rei

Vinte e cinco anos após a chegada da trilogia O Senhor dos Anéis aos cinemas, o entusiasmo renovado em torno de seu relançamento convida não apenas à celebração de um feito cinematográfico, mas também a uma releitura mais profunda da obra de Tolkien. Em O Retorno do Rei, Joseph Pearce propõe justamente esse retorno às fontes, mostrando que por trás da aventura épica e do imaginário fantástico existe uma arquitetura espiritual rigorosa, enraizada no calendário litúrgico e na teologia cristã, na qual o Anel, a jornada de Frodo e a própria data de sua destruição revelam um significado muito mais alto e exigente do que a maioria dos leitores e espectadores costuma perceber.

Joseph Pearce, Crisis Magazine | Tradução: Equipe Instituto Newman


O anúncio do relançamento da trilogia O Senhor dos Anéis, dirigida por Peter Jackson, em comemoração aos 25 anos de A Sociedade do Anel, reacendeu o entusiasmo do público e já demonstra a força duradoura da obra: antes mesmo de chegar novamente aos cinemas, a iniciativa acumulou cerca de US$ 5 milhões em pré-vendas nos Estados Unidos, com aproximadamente 407 mil ingressos vendidos, confirmando que a Terra-média continua a exercer o mesmo fascínio de sempre.

Para aqueles com idade suficiente para se lembrar, o lançamento dos filmes há um quarto de século foi mais do que apenas um marco na história do cinema; foi também uma prova viva e incontestável de que a epopeia de J.R.R. Tolkien, publicada pela primeira vez meio século antes, continuava tão popular e poderosa como sempre. 

Há vinte e cinco anos, como autor do livro Tolkien: Homem e Mito, publicado recentemente, recebi convites para dar palestras em todo o país sobre O Senhor dos Anéis, aproveitando a onda de entusiasmo que acompanhou o lançamento dos filmes. O público nem sempre se sentia à vontade com o que ouvia, porque eu enfatizava o próprio julgamento de Tolkien e suas próprias palavras: “O Senhor dos Anéis é, obviamente, uma obra fundamentalmente religiosa e católica”. 

Os alunos de prestigiosas universidades, como Harvard e Princeton, ficavam perplexos e nem sempre achavam graça ao ouvir sobre a conexão entre o poder do Anel e o poder do pecado, e vários alunos da Universidade de Columbia organizaram uma manifestação quando perceberam que o clássico de Tolkien tinha camadas de significado que desafiavam suas visões de mundo relativistas.

Quanto a essas camadas de significado, elas são reveladas pelo uso sutil que Tolkien faz do calendário litúrgico para “batizar” sua obra com significado cristão. O Anel é destruído em 25 de março, na Festa da Anunciação. Imagine os alunos, não familiarizados com a doutrina católica, sendo informados de que a Anunciação era a festa da Encarnação, quando o Verbo se fez carne, e era, portanto, mais importante do que o Natal, porque a vida começa na concepção, não no nascimento. 

Agora imagine a reação dos alunos quando lhes foi dito que 25 de março é também, segundo a tradição, a data histórica da crucificação. É evidente que Tolkien escolheu esta data específica para a destruição do Anel por uma razão, ligando-a de alguma forma tanto à Encarnação como à crucificação.

Mas qual é exatamente a conexão? Ela pode ser encontrada na relação entre a destruição do Anel e o que é destruído por Cristo em sua vida, morte e ressurreição. Cristo destrói o poder do pecado através de sua morte na cruz em 25 de março. O Anel é, portanto, sinônimo do próprio pecado de alguma forma. O Anel é “o único para governar todos e na escuridão prendê-los”. O Pecado Original é também o único para governar todos e na escuridão prendê-los. O poder do Anel e o poder do Pecado são ambos destruídos em 25 de março.

Uma vez compreendido o sinônimo do Anel-Pecado, O Senhor dos Anéis ganha vida teologicamente. Colocar o Anel é o ato do pecado, que nos separa do mundo bom que Deus criou, tornando-nos invisíveis. Enquanto usamos o Anel, estamos no reino do Senhor das Trevas, que agora pode nos ver mais claramente e exercer seu poder sobre nós. Eventualmente, se usarmos o Anel habitualmente, nos tornaremos miseráveis, destroços encolhidos, meras sombras da boa pessoa que fomos criados para ser. A terrível verdade é que o pecado nos transforma em gollums!  

Imagine o estudante que adora O Senhor dos Anéis ouvindo isso. Será que ele ouviria a terrível verdade e se veria no espelho como Gollum, ou pelo menos como alguém que está se transformando em Gollum? Tolkien escreveu que os contos de fadas são um espelho para o homem. Eles nos mostram a nós mesmos. Às vezes, podemos não gostar do que vemos, mas ver isso é bom para nós.

Mas há mais. Se usar o Anel é um ato pecaminoso, carregá-lo sem usá-lo é escolher carregar o fardo do pecado sem pecar. O portador do Anel é, portanto, um portador da cruz. É por isso que Frodo Baggins é, em certo sentido sutil, uma figura de Cristo. E é por isso que Tolkien, voltando ao calendário litúrgico, faz Frodo deixar Rivendell no início da jornada no dia de Natal e chegar ao Monte da Perdição (Gólgota) na Sexta-feira Santa. A jornada de Frodo é análoga, literária e liturgicamente, à vida de Cristo, desde seu nascimento até sua morte.

Imagine, mais uma vez, o impacto dessa compreensão de O Senhor dos Anéis sobre o público jovem, que não tinha ideia de que seu livro ou filme favorito era “fundamentalmente religioso e católico”, como Tolkien insistia.

“Um jovem que deseja permanecer um ateu convicto não pode ser cuidadoso demais com suas leituras”, escreveu o grande amigo de Tolkien, C.S. Lewis, sobre sua própria experiência, como um jovem ateu, lendo George MacDonald e G.K. Chesterton. O que foi verdade para Lewis ao ler MacDonald e Chesterton é verdade para milhões de jovens que leem O Senhor dos Anéis. Só podemos esperar e rezar para que o relançamento dos filmes leve muitas pessoas a descobrir — ou redescobrir — o livro fundamentalmente católico.


O Autor

Joseph Pearce é colaborador sênior do The Imaginative Conservative. Nascido na Inglaterra, o Sr. Pearce é professor visitante de Literatura na Ave Maria University e pesquisador visitante da Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire). Ele é editor da St. Austin Review e editor da série Ignatius Critical Editions além de autor de vários livros.

 

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