O significado da Quaresma

A cada ano, a Igreja nos conduz à Quaresma como a um tempo de conversão e renovação interior. Mais do que simples renúncia, este período nos convida a crescer na fé e a reordenar nossas paixões, colocando Deus no centro de nossa vida. A partir de imagens simples e profundamente teológicas, o autor nos recorda que a verdadeira transformação não acontece apenas quando abrimos mão de algo, mas quando permitimos que o Bem maior ilumine e dê sentido a todos os outros bens.

  Ir. John Metilly, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman


É um pouco irônico que a Quaresma, tempo em que renunciamos a certas coisas e tentamos diminuir ou até mesmo abandonar velhos hábitos, seja, na verdade, um tempo de crescimento e aumento. Obviamente, há uma conexão com o aumento da duração dos dias durante a primavera, mas há também um significado espiritual na ideia da Quaresma como uma época de crescimento na fé e aumento da caridade.

Às vezes, quando o sol nasce pela manhã, a lua, se ainda estiver visível, desvanece-se até se tornar uma imagem espectral no céu. A lua desvanece-se não porque ela própria deixa de emitir luz, mas porque há um espetáculo muito maior que monopoliza a luz. O mesmo princípio aplica-se às nossas vidas espirituais. Quando temos um amor excessivo por algo menor — chocolate, café, Netflix ou qualquer outra coisa —, a maneira de amar menos esse algo não é tentar extinguir sua atração sobre nós em um ataque frontal e direto. Em vez disso, devemos introduzir outro bem em nossas vidas que seja tão melhor do que o bem menor que derrube sua tirania, capturando toda a nossa atenção e amor. Afinal, escurecer a lua não faz o sol nascer.

Portanto, o primeiro passo é fazer um balanço de nossas vidas e de nossos amores. Normalmente, podemos identificar o que amamos observando as coisas em que mais pensamos e aquelas que mais tempo dedicamos a tentar alcançar. Então, nos voltamos cada vez mais para o Senhor, de modo que realmente não temos tempo para nada que possa nos afastar dele. Ao nos voltarmos primeiro para ele, permitimos que sua bondade preencha nossa atmosfera mental e coloque todos os outros bens em seus devidos lugares.

Outra verdade sobre a dinâmica sol-lua que quero enfatizar é que a lua só brilha porque o sol a ilumina. O mesmo se aplica aos bens menores em nossa vida e ao bem maior: Deus. Quando Deus entra em nossas vidas de forma dominante, percebemos que todas as coisas boas só são boas por causa dele. Ironicamente, a bondade que Deus distribui por toda a criação torna-se o centro de nosso foco, embora essa bondade exista para nos levar até ele. Santo Agostinho lamentou que, em seu lastimável estado de pecado, ele “mergulhou nessas encantadoras coisas criadas” que Deus havia feito, preferindo a criação ao Criador (Confissões, Livro 10). Em nossa confusão, preferimos tropeçar à luz da lua do que andar à luz do sol.

No entanto, embora pecaminosos, os amores desordenados pelas coisas criadas que encontramos em nós mesmos não são completamente incompreensíveis. Faz algum sentido que sejamos confundidos pelas luzes menores, precisamente porque devemos amar a fonte de toda a luz. Se pudermos ver a luz do sol na lua, nunca mais confundiremos a lua com a fonte da luz. Da mesma forma, se percebermos que todos os bens menores só são bons por causa de Deus, nunca os tornaremos nosso fim último.

A Quaresma é um tempo de abstinência, jejum e esmola, no qual podemos nos livrar do peso dos bens menores que acumulamos. Mas é, antes de tudo e fundamentalmente, um tempo de oração e de crescimento da nossa atração pelo único bem — o próprio bem — que é a fonte de todo bem. E assim, a Quaresma significa mais: mais dia, mais luz e mais Deus. Portanto, conforme os dias ficam mais longos e as noites mais curtas, que nosso amor por Deus aumente e que nosso amor por outros bens encontre nele sua fonte.

O Autor

 

O irmão John Metilly ingressou na Ordem dos Pregadores em 2023. Formou-se em maio de 2023 pela Faculdade Tomás de Aquino, recebendo um diploma de bacharel em Artes Liberais.

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