A ascensão da inteligência artificial tem provocado debates cada vez mais urgentes sobre conhecimento, autoria e responsabilidade moral. Em meio às promessas de inovação e eficiência, surge uma questão fundamental: o que acontece com a verdade quando máquinas são alimentadas pelo trabalho intelectual de milhares de autores sem o devido reconhecimento? Neste artigo, Trevor Lipscombe reflete sobre os desafios éticos da IA à luz da tradição cristã, examinando o plágio, a propriedade intelectual e a necessidade de submeter o progresso tecnológico aos princípios da justiça e da verdade.
Trevor Lipscombe, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
Na Primeira Carta a Timóteo (1 Tim. 1,9-10), São Paulo nos diz : “não ignorando que a lei não foi feita para o justo, mas para os injustos e desobedientes, para os ímpios e pecadores, para os sacrílegos e profanadores, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os fornicadores, sodomitas, traficantes de homens, para os mentirosos e perjuros, e para tudo o que vai contra a sã doutrina.” (1) Palavras severas, sem dúvida. Na versão em latim, a palavra utilizada é plagiariis, que compartilha a mesma raiz de plagiador. No mundo clássico, plagiarius significava sequestrador, o que acabou se tornando a expressão comum que usamos hoje quando alguém rouba as palavras de outra pessoa.
Atualmente, uma onda de plágio está se espalhando pelo sistema universitário. Ninguém menos que o Harvard Crimson(2) relata que 47% dos alunos de graduação daquela renomada instituição da Ivy League(3) admitem ter cometido plágio. Trata-se de plágio quando os alunos reduzem, reutilizam ou reciclam as palavras de outros. É “empréstimo livre” ou “forte influência” quando os acadêmicos fazem isso. No fundo, porém, é roubo. Roubo de propriedade intelectual, talvez, mas roubo, mesmo assim.
Como se dois mil anos de práticas questionáveis de citação não fossem suficientes, a inteligência artificial entra em cena. Trata-se de uma tecnologia nova e promissora, com ainda mais financiamento, e uma capacidade incomparável de plagiar. Em meio ao alvoroço e às manchetes sobre a IA salvando vidas ou ameaçando empregos, é fácil deixar passar despercebidos os processos judiciais. O recente acordo da Anthropic(4) por usar material protegido por direitos autorais de editoras americanas sem permissão chegou à casa dos bilhões de dólares.
Os problemas nunca residem em uma nova tecnologia; é a forma como os seres humanos a utilizam que faz a diferença. São Tomás Moro aconselhou sabiamente — em sua obra Um Homem para Todas as Estações —: “Eu só devo dizer ao rei o que ele deve fazer, não o que ele poderia fazer”. A inteligência artificial, assim como tudo o mais, está sujeita à ética, à moral, aos caprichos e às fantasias dos seres humanos envolvidos. Quem dirá às empresas de IA o que elas devem fazer? Ou seja, o que é moralmente correto fazer?
Na semana passada, foi publicada a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, na qual o pontífice aborda a inteligência artificial e a humanidade. Em seguida, houve uma festa de lançamento, com vários cardeais comentando a obra. Curiosamente, um dos cofundadores da Anthropic estava presente, contribuindo com seus comentários. Admito estar um tanto dividido. Após a publicação do único livro do Papa Leão XIV até o momento e o iminente lançamento de uma edição da própria Magnifica Humanitas, encontrava-me ansioso para ouvir o que nosso autor tinha a dizer sobre o assunto. Mas me incomodou que os holofotes papais fossem compartilhados com aqueles que se apropriaram da propriedade intelectual de centenas de nossos autores menos famosos sem permissão e sem dar crédito acadêmico. O trabalho de nossos autores — seu conhecimento, suas habilidades que levaram anos de treinamento para serem aperfeiçoadas, sua redação — acaba sendo extraído por uma empresa qualquer e apresentado em pesquisas online. Enquanto isso, os autores permanecem no anonimato.
Há, porém, uma história que só aparece no Evangelho de Lucas. Jesus convida o cobrador de impostos Zaqueu a descer de uma árvore e eles jantam juntos. Na época, muitas pessoas reclamavam do favoritismo demonstrado a um pecador. Mas, em resposta, Zaqueu prometeu doar metade de seus bens aos pobres e devolver, o quádruplo de tudo o que tivesse roubado de quem quer que fosse.
Não estou esperando que o valor do acordo judicial quadruplique. Mas talvez, apenas talvez, a IA esteja prestes a entrar em um futuro muito mais ético, guiada por aqueles que sabem o que devem fazer, e não o que podem fazer.
Notas
1 – N.T: A tradução da Bíblia utilizada foi a Vulgata, tradução do padre Matos Soares.
2 – N.T: O Harvard Crimson é o maior jornal universitário da Universidade de Harvard nos Estados Unidos.
3 – N.T: Ivy League é um grupo de oito universidades privadas localizadas no nordeste dos Estados Unidos, mundialmente famosas pela excelência acadêmica, tradição secular e processo seletivo extremamente rigoroso.
4 – N.T: A Anthropic é uma empresa norte-americana de inteligência artificial (IA) fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI.
O Autor
Trevor Lipscombe é diretor da Catholic University of America Press. É doutor em Física Teórica pela Universidade de Oxford e bacharel em Física Teórica pela Queen Mary University of London. Foi editor-chefe da Johns Hopkins University Press. É autor de vários livros.