Como ler os diálogos de Platão?

Ler Platão é mais do que seguir palavras em uma página; é embarcar em um diálogo vivo que transforma a mente e o coração. O artigo oferece orientações claras e práticas para quem deseja iniciar ou aprofundar o estudo dos diálogos platônicos, mostrando como a leitura atenta, o diálogo com outros leitores e o exemplo de Sócrates podem nos ajudar a pensar de forma mais livre, clara e corajosa. Um convite a quem busca não apenas entender Platão, mas também aprender a pensar por si mesmo.

    
Foundation for Platonic Studies | Tradução: Equipe Instituto Newman


Se você ainda não leu as obras de Platão, talvez gostaria de saber por quais obras começar e como abordar a tarefa.

Por onde começar?

O principal protagonista dos diálogos de Platão é seu professor, Sócrates. Se você for ler os diálogos, é bom conhecer Sócrates o mais cedo possível. Portanto, seria bom iniciar lendo a trilogia de diálogos que cobre os últimos dias de Sócrates. São eles: a Apologia — um relato da defesa de Sócrates em seu julgamento, no qual ele foi acusado de não acreditar nos deuses e de corromper a juventude; o Críton — uma conversa na qual um amigo íntimo de Sócrates tenta persuadi-lo a escapar da prisão; e o Fedro — uma recontagem dos eventos no dia da execução de Sócrates, incluindo a conversa com seus amigos íntimos sobre se nossas almas são imortais.

Depois de ler essa trilogia, é interessante estudar um ou mais dos “primeiros diálogos”, nos quais Sócrates explora, em conversa com outros, qual é a natureza de algo, como uma das virtudes, por exemplo, o que é coragem? Tendo chegado a um acordo sobre o tema de sua investigação, Sócrates, inicia a conversa pedindo a um ou mais membros da companhia uma definição do objeto, em seguida, juntos, examinarão qualquer definição oferecida. A primeira definição é invariavelmente considerada insuficiente de alguma forma e, após várias outras tentativas, a conversa termina sem uma resposta satisfatória para a pergunta. Mesmo que esses diálogos pareçam terminar de forma inconclusiva, de alguma forma, nesse processo, você adquire uma compreensão maior e mais profunda do assunto sob investigação.

Como abordar a leitura de Platão?

Essa pode parecer uma pergunta estranha, pois certamente é apenas uma questão de pegar um diálogo, começar do início e ler até o fim. E, de certa forma, isso é tudo o que é necessário. Mas aqui estão algumas dicas simples que podem ajudar.

Tente entender o que Platão está dizendo por si mesmo, em vez de confiar nas opiniões dos comentaristas. É surpreendente como muitos estudantes de Platão não têm confiança para ler Platão por si mesmos, achando que é necessário recorrer ao que os outros fazem dele para chegar ao seu próprio entendimento. 

Isso não quer dizer que os comentários não tenham lugar, longe disso, pois eles podem ajudar a dar contexto ou lançar luz sobre assuntos que não estão claros no texto e, muitas vezes, têm ideias brilhantes para compartilhar, mas é mais gratificante adotar a disciplina de conhecer o texto de forma nova, sem ser sobrecarregado pelas opiniões dos outros. Então, depois de se esforçar para entender o texto por conta própria, você pode recorrer aos comentaristas para obter ajuda quando necessário.

Ao ler um diálogo platônico, em intervalos regulares, faça questão de esclarecer o que está escrito no texto, fazendo a seguinte pergunta: “o que Platão está dizendo aqui? Espere até ter feito isso para começar a considerar o que você acha do texto. Adotar essa disciplina não é tão fácil quanto parece. Como leitor, é muito fácil pensar que Platão escreveu uma coisa quando, na verdade, ele escreveu outra, às vezes até o oposto do que você pensa. A razão para isso está, em parte, na forma das obras de Platão — são conversas ou, como são comumente conhecidas, diálogos. 

Essa forma de apresentação funciona muito bem para dar vida à filosofia e prender nossa atenção, mas, de certa forma, exige mais de nós. Os oradores nos diálogos têm sua própria maneira de se expressar e, como em qualquer conversa, nem sempre é fácil acompanhar o que está sendo dito, ou como a contribuição de um orador segue a de outro. Às vezes, isso precisa ser descoberto.

Não espere respostas fáceis. 

Platão está mais interessado em estimulá-lo a pensar do que em lhe dizer o que pensar. Se você espera receber um conjunto de respostas pré-formuladas, bem embaladas para que possam ser usadas mais tarde, provavelmente ficará muito desapontado. Mas ele lhe mostrará o que significa pensar por si mesmo e lhe dará a confiança necessária para fazer isso, em vez de ficar preso às opiniões dos outros (e, na verdade, às suas próprias!).

Permita-se ser desafiado. Sócrates descreveu sua arte do discurso filosófico como a de uma parteira, não de bebês, mas das ideias profundamente arraigadas em nossa psique. Ao nos envolvermos em um discurso filosófico à maneira de Sócrates e ao buscarmos seriamente as perguntas que surgem de nossa leitura dos diálogos, começamos a ver as estruturas habituais de pensamento que operam dentro de nós. Isso é muito útil, pois ao enxergá-las, gradualmente nos libertamos de suas garras e temos mais chances de apreciar as coisas como elas realmente são. Vale a pena o esforço!

Outra ótima dica é encontrar uma pessoa, ou mais de uma, que esteja interessada em ler Platão e leiam um diálogo juntos. Isso pode ser extremamente gratificante. Antes que se dêem conta, vocês se verão explorando todos os tipos de questões, como Platão pretendia, e chegarão a uma compreensão muito mais profunda do assunto do que se trabalhassem sozinhos. 

Você também tem, como guia fiel, o exemplo de como Sócrates se envolve em um discurso filosófico com outras pessoas, conforme retratado nas obras de Platão; por exemplo, a maneira como Sócrates ouve com tanta atenção e interesse o que os outros dizem e os trata com respeito; o desejo de Sócrates de buscar a verdade sobre o assunto — independentemente de onde isso possa levar a conversa; e seu “maior medo” é pensar que sabe algo quando não sabe. A disciplina de dedicar o tempo necessário para entender o que está escrito no texto, antes de considerar o que você acha dele, é ainda mais importante quando se lê com outras pessoas. Muitas vezes, podemos nos precipitar e dar aos outros o benefício de nossas opiniões. É uma boa prática considerar juntos o que o texto está dizendo e, depois de chegar a algum tipo de consenso, só então iniciar uma discussão.

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