Poucos textos da tradição cristã exprimem com tanta força e universalidade o júbilo da Ressurreição quanto o célebre Sermão Pascal de São João Crisóstomo. Proclamado há séculos nas liturgias orientais na aurora da Páscoa, este sermão não é apenas uma exortação, mas um verdadeiro convite à alegria sem reservas: nele, todos são chamados — os diligentes e os tardios, os fervorosos e os vacilantes — a participar do triunfo de Cristo sobre a morte. Ao traduzi-lo e apresentá-lo ao leitor contemporâneo, buscamos preservar não só sua beleza retórica, mas sobretudo a profundidade teológica e o alcance pastoral de uma mensagem que permanece, ainda hoje, surpreendentemente atual.
São João Crisóstomo, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman
O Sermão Catequético de São João Crisóstomo é lido durante as Matinas da Páscoa na Igreja Ortodoxa e nas Igrejas Católicas Orientais de rito bizantino.
Se alguém for piedoso e amar a Deus, que desfrute desta bela e radiante festa triunfal. Se alguém for um servo sábio, que entre com alegria na alegria de seu Senhor. Se alguém tiver jejuado por muito tempo, que receba agora sua recompensa. Se alguém tiver trabalhado desde a primeira hora, que receba hoje sua justa recompensa. Se alguém tiver iniciado o trabalho na terceira hora, que celebre a festa com gratidão. Se alguém chegou na sexta hora, que não tenha receios; pois de modo algum será privado dela. Se alguém se atrasou até a nona hora, que se aproxime, sem temer nada. Se alguém tiver demorado até mesmo a décima primeira hora, que também não se alarme com seu atraso; pois o Senhor, que zela por sua honra, aceitará o último assim como o primeiro; Ele dá descanso àquele que chega na décima primeira hora, assim como àquele que trabalhou desde a primeira hora.
E Ele tem misericórdia dos últimos e cuida dos primeiros; a uns Ele dá, e aos outros concede dádivas. E Ele aceita as obras, acolhe a intenção, honra os atos e louva a oferta. Portanto, entrai todos na alegria de vosso Senhor; e recebei vossa recompensa, tanto os primeiros quanto os demais. Ricos e pobres, juntos, celebrem esta grande festa. Sérios e descuidados, honrem este dia. Alegrem-se hoje, tanto vocês que jejuaram quanto vocês que desconsideraram o jejum. A mesa está repleta; banqueteiem-se todos suntuosamente. O bezerro está engordado; que ninguém saia com fome.
Desfrutai todos da festa da fé: recebei todos as riquezas da bondade amorosa. Que ninguém lamente sua pobreza, pois o reino universal foi revelado. Que ninguém chore por suas iniquidades, pois o perdão se manifestou da sepultura. Que ninguém tema a morte, pois a morte do Salvador nos libertou. Aquele que era prisioneiro dela a aniquilou. Ao descer ao Inferno, Ele cativou o Inferno. Ele o amargurou quando este provou a Sua carne. E Isaías, predizendo isso, clamou: O Inferno, disse ele, amargurou-se quando Te encontrou nas regiões inferiores. Amargurou-se, pois foi abolido. Ficou amargurado, pois foi ridicularizado. Ficou amargurado, pois foi morto. Ficou amargurado, pois foi derrubado. Ficou amargurado, pois foi acorrentado. Tomou um corpo e encontrou Deus face a face. Tomou a terra e encontrou o Céu. Tomou o que era visível e caiu sobre o invisível.
Ó Morte, onde está o teu aguilhão? Ó inferno, onde está a tua vitória? Cristo ressuscitou, e tu foste derrotado. Cristo ressuscitou, e os demônios caíram. Cristo ressuscitou, e os anjos se alegram. Cristo ressuscitou, e a vida reina. Cristo ressuscitou, e nenhum morto permanece no túmulo. Pois Cristo, tendo ressuscitado dentre os mortos, tornou-se as primícias daqueles que adormeceram. A Ele seja glória e domínio pelos séculos dos séculos. Amém.