O final feliz de O Gigante Egoísta

Em “O final feliz de O Gigante Egoísta”, Joseph Pearce revisita um dos contos mais conhecidos de Oscar Wilde para lançar luz sobre os últimos momentos da vida do escritor irlandês. Partindo da profunda simbologia cristã presente em “O Gigante Egoísta”, o autor mostra como a conversão de Wilde no leito de morte pode ser compreendida como o desfecho providencial de uma trajetória marcada por talento, decadência e sofrimento. Mais do que uma análise biográfica, o texto é uma reflexão sobre misericórdia, arrependimento e redenção — temas centrais tanto na obra quanto na vida de Wilde.    

Joseph Pearce, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman


Os amantes da grande literatura infantil provavelmente já leram e apreciaram “O Gigante Egoísta”, de Oscar Wilde, que ele escreveu originalmente para seus próprios filhos, lendo-lhes a história com lágrimas nos olhos. Na história, o Gigante é curado de seu egoísmo pelo amor de uma criança. Irritado ao descobrir que a criança inocente tinha feridas nas mãos e nos pés, o Gigante é consolado pela criança, que lhe diz que “estas são as feridas do Amor”.

“Quem és tu?”, disse o Gigante, e um estranho temor tomou conta dele, e ele se ajoelhou diante da pequena criança.

E a criança sorriu para o Gigante e disse-lhe: “Você me deixou brincar uma vez no seu jardim; hoje você virá comigo ao meu jardim, que é o Paraíso”.

E quando as crianças correram naquela tarde, encontraram o Gigante morto debaixo da árvore, todo coberto de flores brancas.

Sem que Oscar Wilde soubesse na época da publicação de “O Gigante Egoísta”, em 1888, o final feliz de seu maravilhoso conto de fadas acabaria se revelando profético para o próprio final feliz de Wilde, doze anos depois.

Sem dúvida, tal afirmação — e essa insistência em que Wilde morreu feliz — será uma grande surpresa para aqueles que conhecem o estilo de vida sórdido que levou à sua queda da graça para a desgraça, bem como a pobreza miserável em que viveu após sua saída da prisão.

De fato, é preciso confessar que os últimos dias de Wilde em um quarto de hotel em Paris foram tudo menos bonitos e tudo menos felizes. O final feliz só viria bem no fim. Foi a conversão de Wilde no leito de morte, sua admissão na Igreja Católica na véspera de sua morte, que constituiu o final feliz de sua vida mortal e o início de sua vida feliz para sempre nas terras imortais da eternidade.

Ironicamente e de forma perversa, há aqueles que negariam a Wilde seu final feliz, que se ressentem disso, que o veem como uma traição dos princípios do orgulho e do estilo de vida homossexual que Wilde havia adotado.

Durante a última década de sua vida, que foi uma década de decadência, Wilde havia se tornado um gigante egoísta, abandonando sua esposa e filhos em prol de uma vida de autoindulgência homossexual, arruinando a vida deles e, por fim, arruinando a sua própria. E, no entanto, muitos dos admiradores de Wilde preferem o gigante egoísta ao marido e pai, ao pater familias que escreveu contos de fadas para seus próprios filhos — contos que, desde então, encantaram gerações de filhos de outras pessoas. Esses admiradores do Wilde decadente preferem o gigante egoísta que procurava os “serviços” de jovens prostitutos ao marido amoroso e pai carinhoso. Tal é o seu desprezo pelo final feliz de Wilde que procuraram negá-lo, insistindo que seus pecados não foram perdoados e que ele morreu tão orgulhosamente quanto viveu, com todos os seus pecados ainda grudados nele.

A negação do final feliz baseia-se na sugestão de que o relato da conversão no leito de morte foi uma mentira inventada por Robert Ross, amigo devotamente católico de Wilde, que era a única pessoa presente, além do padre que Ross havia chamado ao leito de morte. Em um artigo publicado no St James’s Gazette no início de 1905, um autor anônimo procurou ridicularizar o relato de Ross sobre a morte de Wilde: “Ele não se tornou católico romano antes de morrer. Ele foi, a pedido de um grande amigo seu, ele próprio um católico devoto, ‘recebido na Igreja’ poucas horas antes de morrer; mas já estava inconsciente há muitas horas e morreu sem jamais ter tido a menor ideia da liberdade que se tomou com seu corpo inconsciente.”

É de se perguntar como o autor anônimo poderia saber que Wilde esteve inconsciente por várias horas antes de sua morte, considerando que ele não estava presente para testemunhar a cena que descreve. No entanto, uma vez semeadas as sementes da dúvida, tornou-se comum negar o final feliz de Wilde, alegando que ele estava inconsciente ou não no pleno uso de suas faculdades mentais (non compos mentis) e que o relato de Robert Ross era uma mentira.

Tudo isso mudou em maio de 1961 com a publicação de um artigo na London Magazine por um padre que era colega e amigo do padre que ministrou a Wilde em seus últimos momentos. O autor, Pe. Edmund Burke, citou documentos do falecido Pe. Cuthbert Dunne, o padre passionista irlandês, que estava em Paris na época da morte de Wilde e que atendeu ao chamado de Robert Ross.

Vamos retomar a história nas palavras de Robert Ross e do padre Dunne, as únicas pessoas presentes.

O relato de Ross é claro e inequívoco: “Quando fui buscar o padre para que ele fosse ao leito de morte, ele estava bastante consciente e levantou a mão em resposta às perguntas, satisfazendo o padre, o padre Cuthbert Dunne, dos Passionistas. Era a manhã anterior à sua morte e, por cerca de três horas, ele compreendeu o que estava acontecendo… que lhe foi administrado o último sacramento.”

Eis o relato do padre Dunne: “Quando chegamos ao pequeno quarto do hotel, pediu-se aos assistentes que se retirassem. Robert Ross ajoelhou-se ao lado da cama, ajudando-me da melhor maneira possível enquanto eu administrava o batismo condicional e, em seguida, respondendo às perguntas enquanto eu concedia a extrema-unção ao homem prostrado e recitava as orações para os moribundos.”

Fica claro neste relato que Wilde estava incapaz de falar. Mas ele estava consciente e em pleno uso de suas faculdades mentais? Ele conseguia ouvir e compreender o que estava acontecendo? O padre Dunne não tinha dúvidas de que Wilde estava plenamente ciente do que estava acontecendo:

Ele fez esforços corajosos para falar e chegava até a insistir por algum tempo tentando se expressar, embora não conseguisse articular palavras. De fato, tive plena certeza de que ele me compreendia quando lhe disse que estava prestes a recebê-lo na Igreja Católica e a administrar-lhe os Últimos Sacramentos. Pelas sinais que ele deu, bem como pelas palavras que tentou pronunciar, tive certeza de seu pleno consentimento. E quando repeti bem perto de seu ouvido os Santos Nomes, os Atos de Contrição, Fé, Esperança e Caridade, com atos de humilde resignação à Vontade de Deus, ele tentou o tempo todo repetir as palavras depois de mim.

O padre Dunne foi um padre bom e consciencioso no cumprimento de seu dever para com o moribundo, visitando Wilde em várias outras ocasiões após a visita inicial. “Nessas visitas subsequentes”, escreveu o padre Dunne, “ele repetiu as orações comigo novamente e, a cada vez, recebeu a Absolvição”.

Talvez não haja melhor maneira de evocar a beleza da admissão de Wilde na Igreja in extremis do que através das belas palavras de um de seus discípulos decadentes, Ernest Dowson, em seu poema “Extrema Unção”:

Nos olhos, nos lábios, nos pés,

Em todas as vias dos sentidos,

O óleo expiatório é derramado com doce

Renovação da inocência perdida.

 

Os pés, que há pouco corriam tão depressa

Para satisfazer o desejo, estão agora calmamente imobilizados;

Os olhos, que tantas vezes se voltavam

Para a vaidade, são tocados e curados.

 

Libertos de imagens e sons perturbadores;

Nesta hora crepuscular do último suspiro,

Será que alguém relembrará sua vida, ou verá,

Através das sombras, o verdadeiro rosto da morte?

 

Frascos de misericórdia! Óleos sagrados!

Não sei de onde nem quando vim,

Nem por quais andanças e fadigas,

Para implorar-vos o Viático.

 

No entanto, quando as paredes da carne enfraquecerem,

Nessa hora, bem pode ser,

Através da névoa e da escuridão, a luz irromperá,

E cada sentido ungido verá. (1) 

 

Voltando à analogia com o Gigante Egoísta, podemos imaginar Wilde, após ter recebido os sacramentos e ter chegado ao fim de sua vida mortal, “deitado morto sob a árvore, todo coberto de flores brancas”. A árvore é a cruz, na qual Cristo está pendurado, ostentando “as feridas do Amor”, sob a qual o pecador, absolvido de seus muitos pecados, veste um sudário de flores brancas, simbolizando seu retorno à inocência infantil.

Quanto àqueles que preferem o orgulho de Wilde à sua humildade, e que preferem seus pecados ao perdão deles, deixaremos que o padre Cuthbert Dunne condene a injustiça que lhes foi infligida “a um homem morto que não pode proferir uma palavra em sua defesa e que, quaisquer que tenham sido seus pecados, os expiou sofrendo severas punições: prisão, ostracismo do alto mundo no qual ele fora um ídolo, perda de tudo o que o cultivo de seus brilhantes talentos lhe trouxera, pobreza na qual ficou dependente dos outros para seu sustento. Depois de tudo isso, ele se voltou para Deus em busca de perdão e da graça curativa dos sacramentos no final, e morreu como filho da Igreja Católica.”


O autor

Joseph Pearce é colaborador sênior do The Imaginative Conservative. Nascido na Inglaterra, o Sr. Pearce é professor visitante de Literatura na Universidade Ave Maria e pesquisador visitante do Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire). É editor da St. Austin Review e editor da série Ignatius Critical Editions. É autor de vários livros.

N.T: Tradução nossa.

 

 

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