Em nosso fim reside nosso começo

No capítulo 17 do Evangelho de São João, somos conduzidos ao coração do mistério cristão. A chamada Oração Sacerdotal de Cristo revela, de forma singular, a comunhão eterna entre o Pai e o Filho, bem como o amor divino derramado sobre aqueles que são chamados à salvação. Nesta profunda meditação, Brian Sudlow convida o leitor a contemplar a origem e o destino de toda a vida cristã: a participação no amor da Santíssima Trindade, para a qual fomos criados e redimidos. Trata-se de uma reflexão que nos recorda que nosso verdadeiro começo e nosso verdadeiro fim encontram-se em Deus.

Brian Sudlow, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman


A passagem de João, capítulo 17, versículos de um a onze é uma das mais misteriosas e deslumbrantes de todo o Novo Testamento. Nela, entramos no Sagrado Coração, como se adentrassemos numa vasta catedral onde as abóbadas imponentes acolhem tanto o estrondo do órgão quanto o sussurro de muitas orações. É difícil resumir seu conteúdo, como costumamos fazer no início de cada reflexão. Basta dizer que vemos principalmente duas coisas: por um lado, a relação do Filho com o Pai e, por outro, o cuidado de ambos por aqueles que pretendem resgatar do pecado. Primeiro, chegamos a um momento crucial na Encarnação, quando o Filho, que renunciou à sua glória para se tornar homem, será tanto humilhado pelos homens quanto glorificado por seu Pai que está nos céus. Em segundo lugar, ouvimos então a oração de Cristo intercedendo pelos apóstolos, seus primeiros discípulos e os membros, por assim dizer, da célula-tronco do seu Corpo Místico, a quem Ele resgatou do mundo. 

Toda oração da Igreja desde aquele momento tem sido, por assim dizer, um coro ou uma participação nessa oração que Cristo oferece naquele momento ao Pai. Quão silenciosa deve ter ficado a sala quando essas palavras inesquecíveis chegaram aos seus ouvidos! Nada tão sublime e, ao mesmo tempo, nada tão estranho e inédito havia sido proferido na história do mundo como essas palavras!

O fundamento de tudo em nossa religião encontra-se nesta passagem. Em primeiro lugar, na relação entre o Pai e o Filho — entre os quais, evidentemente, se encontra o Espírito Santo —, no seu amor mútuo e eterno, encontramos a origem daquela fonte da qual jorra, primeiro, a Criação e, depois, a Salvação. Em nosso fim está o nosso começo, e, uma vez que Deus é a origem de tudo, Deus não poderia ter feito nada maior por nós do que nos oferecer uma participação na sua felicidade eterna e comunitária. Não é de se admirar que São João seja o evangelista prefigurado como uma águia, pois somente o seu evangelho nos dá esses vislumbres elevados dos maiores mistérios da fé, que se desdobram no oceano do momento eterno de Deus. Quando falamos do modo eterno, tanto em nossas orações quanto em nossos pensamentos, estamos mergulhando os pés nesse grande oceano, mesmo que permaneçamos, por enquanto, na costa da história e do tempo humanos.

Chegamos, então, ao segundo aspecto deste evangelho: as orações de Jesus por aqueles que o Pai lhe havia confiado. Que Deus nos conceda a graça de estarmos entre aqueles por quem Jesus intercede naquele momento, pois, embora seu sacrifício tenha sido oferecido por todos, nem todos abrem as portas do coração para sua verdade e seu amor, como nos diz São João logo no primeiro capítulo do evangelho. 

No entanto, observe aqui a ênfase: aqueles que são levados ao seio do Pai pelo Filho são um dom do Pai ao Filho. Eles fazem parte de uma troca eterna de amor. A dignidade e a glória daqueles que entram em sua felicidade resumem-se nisto: assim como o Pai comunica tudo ao Filho, assim Ele restaura, por meio da oração do Filho, suas criaturas rebeldes a essa cascata eterna e imparável de entrega divina. Aqui, nossa vocação é universal: ser, à nossa maneira particular, um pequeno reflexo daquela luz e vida unificadas do Deus Vivo, cujo próprio ser é amor derramado.

A única resposta digna de tal revelação é aquele grande silêncio do céu descrito no Apocalipse, no início do capítulo 8. Perdidos em admiração, tudo o que podemos fazer é desejar ecoar a oração do Sagrado Coração do Filho e expressar nosso amor, nosso “sim” e nosso “obrigado” com Nossa Senhora, de volta à harmonia eterna que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo: o dom que nos deram, a vida para compartilhar; o dom que nos deram, os meios para compartilhar essa vida.

Assim, em nosso fim reside nosso começo. No amor da Santíssima Trindade está o nosso fim. Ó, Sagrado Coração de Jesus, rezai por nós, para que sejamos teus e do Pai para todo o sempre. Amém.


O Autor

Brian Sudlow é professor assistente de História na Universidade de Aston, em Birmingham, no Reino Unido. É autor de vários livros sobre diversos intelectuais católicos do século XX, incluindo G. K. Chesterton, Georges Bernanos, Charles Péguy, René Girard, Fabrice Hadjadj e Dietrich von Hildebrand.

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