Os Sete Pilares da Civilização

Ao longo da história, grandes livros moldaram não apenas a literatura, mas o próprio espírito da civilização ocidental. Em seu ensaio, Joseph Pearce nos conduz por essa herança intelectual e espiritual, destacando os sete pilares da civilização — de Homero a Dante, passando pela Bíblia, Agostinho e Tomás de Aquino — que sustentam o edifício cultural do Ocidente. Mais do que simples textos, esses pilares representam uma tradição de sabedoria que une Atenas, Jerusalém e Roma, e sem a qual estaríamos privados das verdades mais profundas sobre a condição humana e sua vocação ao eterno.   


Joseph Pearce, The Imaginative Conservative | Tradução: Equipe Instituto Newman


Na semana passada, dei uma palestra sobre “por que Shakespeare é importante” na Colorado Christian University. No jantar que antecedeu a palestra, o reitor da universidade me pediu para citar os seis textos que eu considerava fundamentais para a civilização ocidental. Esforçando-me para lembrar seis títulos que pudessem se encaixar nessa descrição, pensei que tal exercício poderia servir de inspiração para um ensaio instigante.

Permitindo-me uma pequena licença poética ou margem literária, concedi a mim mesmo sete textos, em vez de seis. Com uma reverência respeitosa a T. E. Lawrence, eis o que considero serem os sete pilares da sabedoria sobre os quais se ergue a civilização ocidental.

Começando na Grécia antiga, os dois primeiros textos são as torres gêmeas da antiguidade, A Ilíada e A Odisseia. As narrativas épicas de Homero merecem destaque por seu mérito literário, mas também pela influência que exerceram nos três milênios desde que foram escritas.

Passando de Atenas para Jerusalém, a inclusão da Bíblia Sagrada não precisa de justificativa nem explicação. Sua ausência removeria o próprio coração da civilização ocidental.

Passamos agora para Roma, a terceira das cidades fundamentais sobre as quais a civilização ocidental foi construída, e para o épico de Virgílio sobre a fundação da própria Roma. Embora a Eneida, como obra literária, não atinja as alturas literárias dos épicos de Homero, sua influência superou a de Homero durante os primeiros séculos da cristandade, devido ao fato de ter sido escrita em latim acessível e não no grego relativamente inacessível. 

O latim era a língua da civilização e Virgílio era o poeta latino por excelência. No entanto, é desnecessário dizer que a dívida de Virgílio para com Homero é tão grande que seu próprio épico teria sido literalmente inimaginável sem a presença em sua imaginação da Ilíada e da Odisseia. A musa virgiliana está apoiada nos ombros homéricos.

Passamos agora a um gigante da civilização em quem o pensamento de Atenas, Jerusalém e Roma se encontram e se fundem. Trata-se do grande Santo Agostinho e sua obra-prima, A Cidade de Deus, que é o quinto dos nossos pilares textuais. Além de sua brilhante exposição da teologia cristã, Agostinho debate-se com a filosofia dos gregos, ilustrando as limitações do platonismo, mas também reconhecendo a sabedoria e a verdade de alguns aspectos do pensamento platônico. 

Pode-se dizer, de fato, que Agostinho batiza Platão, trazendo-o para a grande conversa que animaria o pensamento cristão. A Cidade de Deus e outras obras de Agostinho consumaram o casamento entre fé e razão, unindo teologia e filosofia em uma união indissolúvel.

O penúltimo pilar é aquele outro edifício da teologia e filosofia cristãs, a Suma Teológica de Tomás de Aquino. Não é de se admirar que este grande santo tenha recebido o título de Doutor Angélico. Ele é o filósofo e teólogo proeminente em toda a história da cristandade, cuja influência é imensurável. Uma de suas muitas realizações seminais foi a integração do pensamento de Aristóteles à filosofia cristã, batizando assim Aristóteles como Agostinho havia batizado Platão.

Isso nos leva ao último pilar, a Divina Comédia de Dante, uma obra que reúne as musas homéricas e virgilianas e as batiza nas águas vivas da teologia e da filosofia tomistas. Na jornada de Dante da Floresta Negra à Visão Beatífica, vemos a fusão da epopeia clássica e da razão escolástica e a infusão da mais sublime sabedoria cristã na arte da narrativa.

Talvez, neste momento, devêssemos oferecer uma reverência respeitosa a outros grandes livros, cuja exclusão dos sete magníficos possa causar espanto ou até mesmo ser considerada um pecado de omissão. A exclusão das obras de Platão e Aristóteles pode parecer um pouco estranha, embora elas tenham sido incorporadas indiretamente em sua forma batizada nas obras de Agostinho, Aquino e Dante. A ausência de A Consolação da Filosofia, de Boécio, pode causar espanto, especialmente por ter sido um dos textos mais influentes na cultura da cristandade durante muitos séculos. 

A Regra de São Bento teve um impacto seminal na civilização ocidental, com seus preceitos governando a vida de inúmeras comunidades monásticas que levaram a chama da fé e da cultura através dos séculos.

Por fim, devemos mencionar Shakespeare. Muitas de suas obras individuais merecem ser incluídas entre os ilustres Grandes Livros, e seu corpus, tomado como um todo e publicado como As Obras Completas de William Shakespeare, é equivalente a qualquer um dos títulos seminais da lista que constitui os sete pilares da civilização. Sua exclusão da lista não constitui um pecado de omissão, no entanto, porque toda a modernidade, incluindo Shakespeare, se baseia nos sólidos pilares pré-modernos da civilização que listamos. 

Tudo o que é civilizado na modernidade e tudo o que é civilizado nas obras de Shakespeare depende da própria civilização ocidental e dos sete pilares da sabedoria que a sustentam. Esses sete pilares da civilização ocidental são também as sete maravilhas textuais da cultura civilizada. Com eles, podemos sondar as profundezas da psique humana e alcançar as alturas do céu; sem eles, estamos perdidos no cosmos, sem nada para nos confortar. Pela herança inestimável desses dons bons, verdadeiros e belos, devemos dar graças ao próprio Bom, Verdadeiro e Belo.

Deo gratias!


O Autor

Joseph Pearce é professor visitante de literatura na Ave Maria University e membro visitante da Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire). Autor de mais de trinta livros, ele é editor da St. Austin Review, editor da série Ignatius Critical Editions, instrutor sênior da Homeschool Connections e colaborador sênior da Imaginative Conservative e da Crisis Magazine.

 

 

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